Poesia: Soneto (Bocage)

 


Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, às margens do rio Sado, em Portugal, no dia 15 de setembro de 1765. Filho de José Luís Soares de Barbosa, juiz de fora e ouvidor, e de Mariana Joaquina Xavier l'Hedois Lustoff du Bocage, descendente de família da Normandia, região histórica do noroeste da França.


Bocage deixou fama de poeta satírico e, com o tempo seu nome tornou-se sinônimo de contador de histórias picantes e obscenas. Por outro lado, Bocage produziu também os mais belos poemas líricos, a ponto de ser colocado ao lado de Camões e Antero de Quental, como figuras máximas da poesia portuguesa.


Bocage, apesar da vida libertina em que se afundou vários anos, nunca inteiramente se afastou do Cristianismo; ele mesmo o declara num soneto, dirigindo-se a Deus:



Nunca impiedade em mim fez bruto ensaio;
Sempre (até das paixões no desatino)
Tua clemência amei, temi Teu raio.


Mas depois de vencido o “desatino das paixões”, no período final da sua breve vida – morreu com 40 anos – operou-se nele uma reviravolta muito marcada, regressando a uma vivência cristã entusiasta.


Manuel Maria Barbosa du Bocage faleceu em Lisboa, Portugal, no dia 21 de dezembro de 1805.

 

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Soneto

Oh Rei dos reis, oh Árbitro do mundo,
Cuja mão sacrossanta os maus fulmina,
E a cuja voz terrífica, e divina
Lúcifer treme no seu caos profundo!


Lava-me as nódoas do pecado imundo,
Que as almas cega, as almas contamina:
O rosto para mim piedoso inclina,
Do eterno império Teu, do Céu rotundo:


Estende o braço, a lágrimas propício,
Solta-me os ferros, em que choro e gemo
Na extremidade já do precipício:


De mim próprio me livra, oh Deus supremo!
Porque o meu coração propenso ao vício
É, Senhor, o contrário que mais temo.


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Hino a Deus

Pela voz do trovão corisco intenso
Clama que à Natureza impera um Ente,
Que cinge do áureo dia o véu ridente,
Que veste da atra noite o manto denso.

Pasmar na imensidade é crer o Imenso;
Tudo em nós o requer, O adora, O sente;
Provam-Te olhos, ouvidos, peito e mente?
Númen, eu ouço, eu olho, eu sinto, eu penso!

Tua ideia, ó Grão-Ser, ó Ser divino,
Me é vida, se me dão mortal desmaio
Males que sofro e males que imagino:

Nunca impiedade em mim fez bruto ensaio;
Sempre (até das paixões no desatino)
Tua clemência amei, temi Teu raio.

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Confiança na misericórdia divina (ou  O retrato de Deus desfigurado por ministros embusteiros)

Lá quando a Tua voz deu ser ao nada,
Frágil criaste, ó Deus, a Natureza;
Quiseste que aos encantos da beleza
Amorosa paixão fosse ligada:

Às vezes em seus desgostos desmandada,
Nos excessos desliza-se a fraqueza;
Fingem-Te então com ímpeto e braveza
Erguendo contra nós a dextra armada.

Ó almas sem acordo e sem brandura,
Falsos órgãos do Eterno! Ah!... Profanai-O,
Dando-Lhe condição tirana e dura!

Trovejai, que eu não tremo e não desmaio;
Se um Deus fulmina os erros da ternura,
Uma lágrima só Lhe apaga o raio.

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A Paixão de Jesus Cristo


O Filho do Grão-Rei, que a monarquia
Tem lá nos Céus, e que de Si procede,
Hoje, mudo e submisso, à fúria cede
De um povo, que foi Seu, que à morte O guia.

De trevas, de pavor se veste o dia,
Inchado, o mar o seu limite excede,
Convulsa a terra, por mil bocas pede
Vingança de tão nova tirania.

Sacrílego mortal, que espanto ordenas,
Que ignoto horror, que lúgubre aparato!...
Tu julgas teu Juiz!... Teu Deus condenas!

Ah, castigai, Senhor, o mundo ingrato:
Caiam-lhe as maldições, chovam-lhe as penas,
Também eu morra, que também vos mato.