Poesia: Elegia (trechos - Camões)

 

Luís de Camões (1524-1580) foi um poeta português. Autor do poema Os Lusíadas, uma das obras mais importantes da literatura portuguesa, que celebra os feitos marítimos e guerreiros de Portugal. É o maior representante do Classicismo Português.

Quando jovem, compôs uma elegia à Paixão de Cristo, que ofereceu a seu tio. Seus versos revelam que ele estudou os clássicos da Antiguidade e os humanistas italianos.


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Elegia (Trechos)

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Esta Potência, enfim, que tudo manda,
Esta Causa das causas, revestida
Foi desta nossa carne miseranda.
Do amor e da justiça compelida,
Pelos erros da gente, em mãos da gente
(como se Deus não fosse!) perde a vida.
Ó cristão descuidado e negligente
Pondera isto, que digo, repousado,
Não passes por aqui tão levemente.
Não, que aquele Deus alto incriado,
Senhor das cousas todas, que fundou
O Céu, a Terra, o fogo e o mar irado,
Não do confuso Caos, como cuidou
A falsa teologia e o povo escuro,
Que nesta só verdade tanto errou;
Não dos átomos falsos de Epicuro;
Não do largo Oceano, como Tales,
Mas só do pensamento casto e puro.
Olha, animal humano, quanto vales,
Que por ti este grande Deus padece,
Novo modo de morte, novos males.
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O sumo Deus! Tu mesmo te condenas
pelo mal em que eu só sou tão culpado,
a tamanhas afrontas, tantas penas.
Por mim, Senhor, no mundo reputado
Por falso e por quebrantador da lei
A fama de ti se põe do meu pecado.
Eu, Senhor, sou ladrão; tu, justo Rei;
Eu, só furtei; tu, com ladrões padeces;
A pena a-ti se dá do que eu pequei.
Eu, servo sem valor; tu, sumo preço,
Em preço vil te pões, por me tirares,
Do cativeiro eterno, que mereço.
Eu, por perder-te; e tu, por me ganhares,
Te dás aos homens baixos, que te vendem,
Só para os homens presos resgatares.
A ti, que as almas soltas, a ti prendem;
A ti, sumo Juiz, ante juízes te acusam,
Pólo error dos que te ofendem.
Chamem-te malfeitor, não contradizes;
Sendo tu dos Profetas a certeza,
Dizem que quem te fere profetizes.
Rim-se de ti; tu choras a crueza
Que sobre eles virá. A gente dura,
Por quem tu vens ao mundo, te despreza.
O teu rosto, de cuja fermosura
Se veste o Céu e o Sol resplandecente,
Diante do que muda está a Natura,
Com cruas bofetadas da vil gente,
De precioso sangue está banhado,
Cuspido, arrepelado cruelmente.
... ... ...
Com cordas pelas ruas o levavam,
levando sobre os ombros o troféu
das vitórias que as almas alcançavam.
Ó tu que passas, homem Cireneu,
Ajuda um pouco este Homem verdadeiro,
Que agora como humano enfraqueceu!
Olha que o corpo, aflito do marteiro
E dos longos jejuns debilitado,
Não pode já co peso do madeiro.
Oh não enfraqueçais, Deus encarnado!
Essas quedas, que tanto vos magoam,
Suportai, Cavaleiro sublimado!
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