Comunhão e Serviço: A pessoa humana criada à imagem de Deus
O documento "Comunhão e Serviço: A pessoa humana criada à imagem de Deus" foi publicado em 2020 pela Comissão Teológica Internacional, que é um órgão consultivo da Congregação para a Doutrina da Fé, que tem a função de auxiliar o Magistério da Igreja em questões doutrinárias.
Este documento reflete sobre o ensino oficial da Igreja Católica sobre a dignidade da pessoa humana criada à imagem de Deus.
2) A responsabilidade pelo mundo criado
71. Os vertiginosos progressos científicos e tecnológicos dos últimos cento e cinquenta anos tiveram como resultado uma situação radicalmente nova para os seres que vivem neste planeta. Melhorias como por exemplo maior abundância material, uma qualidade de vida mais alta, melhores condições de saúde e uma expectativa de vida maior foram acompanhadas pela poluição atmosférica e das águas, pelo problema dos detritos industriais tóxicos, pela exploração e às vezes pela destruição de habitat delicados. Nesta situação, os seres humanos desenvolveram uma consciência mais aguda dos laços orgânicos que os unem aos outros seres vivos. Contempla-se agora a natureza como uma biosfera em todos os seres formam uma rede de vida, complexa e todavia cuidadosamente organizada. Agora, além disso, é fato pacificamente admitido que existem limites tanto para os recursos naturais disponíveis como também para a capacidade da natureza para reparar os danos causados a ela através da incessante exploração de seus recursos.
72. Infelizmente, uma das consequências desta nova sensibilidade ecológica é que o cristianismo foi por alguns acusado de ser em parte responsável pela crise ambiental, justamente por ter realçado a posição do homem, criado à imagem para governar a criação visível. Chegam alguns críticos ao ponto de dizerem que na tradição católica está faltando uma sólida ética ecológica enquanto o homem é considerado essencialmente superior ao resto do mundo natural, e que para tal ética será necessário voltar-se para as religiões asiáticas e tradicionais.
73. Essa crítica, porém, se baseia em uma leitura profundamente errada da teologia cristã da criação e da imago Dei. Falando da necessidade de uma “conversão ecológica”, afirmou João Paulo II: “O senhorio do ser humano não é absoluto, mas ministerial [...], é a missão não de um senhor absoluto e inquestionável, mas de um ministro do Reino de Deus” (Audiência Geral de 17 de janeiro de 2001). É possível que uma errônea maneira de compreender este ensinamento tenha levado alguns a agirem de modo irresponsável em face do ambiente natural, mas a doutrina cristã sobre a criação e sobre a imago Dei jamais estimulou a exploração descontrolada e o esgotamento dos recursos naturais. As observações de João Paulo II refletem a crescente atenção com a qual o Magistério acompanha a crise ecológica, preocupação que encontra suas raízes já nas Encíclicas sociais dos modernos pontificados. Na perspectiva desse ensino, a crise ecológica é um problema humano e social, ligado à violação dos direitos humanos e à desigualdade no acesso aos recursos naturais. O Papa João Paulo II recapitulou esta tradição do magistério social da Igreja quando escreveu na Centesimus annus: “Igualmente preocupante, junto com o problema do consumismo e com ele estreitamente conexo, é a questão ecológica. O homem, dominado pelo desejo de ter e gozar, mais que pelo desejo de ser e crescer, consome de modo exagerado e desordenado os recursos da terra e a sua própria vida. Na raiz da insensata destruição do ambiente natural está um erro antropológico, infelizmente muito difundido em nossa época. O ser humano, que descobre sua capacidade de transformar e, em certo sentido, criar o mundo com seu próprio trabalho, esquece que este sempre se desenvolve na base da primeira originária doação das coisas por Deus” (CA 37).
74. A teologia cristã da criação contribui de modo direto para a solução da crise ecológica, ao afirmar a verdade fundamental que a criação visível é, ela mesma, dom divino, o “dom originário”, que fixa um “espaço” de comunhão pessoal. Poder-se-ia, com efeito, dizer que uma correta teologia cristã da ecologia é dada pela aplicação da teologia da criação. Observe-se como o termo “ecologia” combina as duas palavras gregas oikos (casa) e logos (palavra): o ambiente físico da existência humana poderia ser visto como uma espécie de “casa”, “habitação” para a vida humana. Considerando-se que a vida íntima da Santíssima Trindade é uma vida de comunhão, o ato divino da criação é a produção gratuita de parceiros que poderão compartilhar essa comunhão. Pode-se dizer, neste sentido, que a divina comunhão agora encontrou a sua “habitação” no mundo criado. Por esse motivo, pode-se falar do cosmos como de um lugar de comunhão pessoal.
75. A cristologia e a escatologia podem em conjunto iluminar ainda mais essa verdade. Na união hipostática da Pessoa do Filho com a natureza humana, Deus vem a este mundo e assume a corporeidade que Ele mesmo criou. Na Encarnação, através do Filho Unigênito, nascido da Virgem Maria através do poder do Espírito Santo, o Deus Uno e Trino cria a possibilidade de uma comunhão íntima e pessoal com os seres humanos.
Visto que Deus quis benignamente elevar pessoas criadas à participação dialógica em sua vida, Ele deve, por assim dizer, descer até o nível da criatura. Alguns teólogos falam desta divina condescendência como de uma forma de “hominização” mediante a qual Deus torna livremente possível a nossa divinização. Deus não só manifesta a sua glória no cosmos através de atos teofânicos, mas também assumindo-lhe a corporeidade. Nesta perspectiva cristológica, a “hominização” de Deus é um ato de solidariedade, não só com pessoas criadas, mas com todo o universo criado e o seu destino histórico. Não só, mas na perspectiva escatológica, a segunda vinda de Cristo pode ser vista como o evento em que Deus fixa fisicamente morada no universo levado à perfeição, que leva a pleno termo o plano original da criação.
76. Longe de incentivar uma exploração desregrada e antropocêntrica do ambiente natural, a teologia da imago Dei afirma o papel crucial do ser humano na realização deste fixar eterna morada no universo levado à perfeição por Deus. Os seres humanos, pelo plano divino, são os administradores dessa transformação pela qual anseia todo o mundo criado. Não só os seres humanos, mas todo o conjunto da criação visível é chamado a participar da vida divina. “Com efeito, sabemos que toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto, e não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nosso íntimo, esperando a condição filial, a redenção de nosso corpo” (Rm 8,22-23). Segundo a perspectiva cristã, a nossa responsabilidade ética para com o ambiente natural, “morada da nossa existência”, encontra portanto suas raízes em uma profunda compreensão teológica da criação visível e do nosso lugar dentro dela.
77. Referindo-se a esta responsabilidade em uma importante passagem da Evangelium vitae, eis o que escreveu João Paulo II: “Chamado a cultivar e a guardar o jardim do mundo (cf. Gn 2,15), o ser humano tem específica responsabilidade sobre o ambiente vital, ou seja, sobre a criação que Deus colocou a serviço da sua dignidade pessoal [...]. É a questão ecológica – desde a preservação dos habitat naturais das diversas espécies animais e das várias formas de vida até a ecologia humana propriamente dita – que encontra na página bíblica uma luminosa e forte indicação ética para uma solução respeitosa do grande bem da vida, de toda vida [...]. Em face da natureza visível, estamos submetidos a leis não só biológicas, mas também morais, que não podem ser impunemente transgredidas” (EV 42).
78. Em última análise, deve-se observar que a teologia não poderá oferecer uma solução técnica para a crise ambiental. Todavia, como vimos também, pode a teologia ajudar-nos a ver o nosso ambiente natural tal como Deus o vê, como o espaço de uma comunhão pessoal em que os seres humanos, criados à imagem de Deus, devem procurar a comunhão recíproca e a perfeição final do universo visível.
79. Esta responsabilidade se estende ao mundo animal. Os animais são criaturas de Deus e, segundo as Escrituras, Ele os cerca com providenciais atenções (cf. Mt 6,26). Os seres humanos deveriam acolhê-los com gratidão e dar graças a Deus pela existência deles, adotando mesmo uma atitude de agradecimento em relação a cada elemento do mundo criado. Com sua própria existência os animais bendizem a Deus e lhe dão glória: “Bendizei, pássaros todos do céu, o Senhor [...]. Bendizei, animais todos, selvagens e domésticos, o Senhor” (Dn 3,80-81). Além disso, a harmonia que o homem deve estabelecer ou restabelecer, no conjunto da criação, inclui também a sua relação com os animais. Quando Cristo vier em sua glória, ele “recapitulará” toda a criação em um momento de harmonia, escatológico e definitivo.
80. Apesar disso, existe uma diferença escatológica entre os seres humanos e os animais, dado que apenas o ser humano é criado à imagem de Deus, e Deus lhe deu o domínio sobre o mundo animal (cf. Gn 1,26-28; Gn 2,19-20). Repisando a tradição cristã com relação ao justo uso dos animais, eis o que afirma o Catecismo da Igreja Católica: “Deus entregou os animais àquele que Ele criou à sua imagem. É portanto legítimo servir-se dos animais para prover ao sustento ou para confeccionar vestes. Podem ser domesticados, para ajudarem o homem nos seus trabalhos e também para se distrair no seu lazer” (CdIC 2417). Este trecho cita, além disso, o legítimo uso de animais para a experimentação médica e científica, sempre reconhecendo porém que “é contrário à dignidade humana infligir sofrimento inútil aos animais” (CdIC 2418). Portanto, seja qual for o modo de servir-se dos animais, é necessário sempre deixar-se guiar pelos princípios já ilustrados; a soberania humana sobre o mundo animal é essencialmente uma administração da qual os seres humanos deverão prestar contas a Deus, que é o Senhor da criação no sentido mais autêntico.
Fonte: Comissão Teológica Internacional, 2004.