Semana Santa com são João Paulo II: Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

 


As seguintes palavras foram preparadas pelo papa João Paulo II para a benção Urbi et Orbe da Páscoa de 2005, ocasião onde manifestou aos fieis e ao mundo o seu testemunho de dor e sofrimento, e, por não conseguir falar, foi lida pelo cardeal Ângelo Sodano. Cinco dias depois, ele se despediria de nós e voltaria ao Pai. 


1. Mane nobiscum Domine!

Fica conosco, Senhor! (cf. Lc 24,29).

Com estas palavras os discípulos de Emaús

convidaram o misterioso Viajante

a permanecer com eles, no entardecer

daquele primeiro dia depois do sábado

em que o inacreditável tinha acontecido.

Conforme a promessa, Cristo ressuscitara;

mas eles ainda não o sabiam.

Porém as palavras do Viajante ao longo do caminho

tinham aos poucos aquecido seus corações.

Por isso Lhe fizeram o convite: “Fica conosco”.

Depois, sentados em volta da mesa da ceia,

reconheceram-no ao “partir o pão”.

E logo a seguir Ele desapareceu.

Diante deles ficou o pão partido,

e no seus corações a doçura daquelas suas palavras.


2. Caríssimos Irmãos e Irmãs,

a Palavra e o Pão da Eucaristia,

mistério e dom da Páscoa,

permanecem ao longo dos séculos como memória perene

da paixão, morte e ressurreição de Cristo!

Também hoje, Páscoa da Ressurreição,

nós, com todos os cristãos do mundo repetimos:

Jesus, crucificado e ressuscitado, fica conosco!

Fica conosco, amigo fiel e seguro apoio

da humanidade a caminho pelas estradas da vida!

Tu, Palavra viva do Pai,

infunde certeza e esperança naqueles que buscam

o verdadeiro sentido da sua existência.

Tu, Pão de vida eterna, nutre o homem

faminto de verdade, liberdade, justiça e paz.


3. Fica conosco, Palavra viva do Pai,

e ensina-nos palavras e gestos de paz:

paz para a terra consagrada pelo teu sangue

e empapada com o sangue de tantas vítimas inocentes;

paz para os Países do Médio Oriente e da África,

onde continua a ser derramado muito sangue;

paz para toda a humanidade, sobre a qual sempre grava

o perigo de guerras fratricidas.

Fica conosco, Pão de vida eterna,

partido e distribuído entre os comensais:

dá-nos também a força de uma solidariedade generosa

para com as multidões que, ainda hoje,

sofrem e morrem de miséria e fome,

dizimadas por epidemias letais

ou prostradas por desastrosas catástrofes naturais.

Em virtude da tua Ressurreição

possam elas também participar de uma vida nova.


4. Também nós, homens e mulheres do terceiro milénio,

necessitamos de Ti, Senhor ressuscitado!

Fica conosco agora e até ao fim dos tempos.

Faz que o progresso material dos povos

jamais ofusque os valores espirituais

que são a alma da sua civilização.

Ampara-nos, Te suplicamos, no nosso caminho.

Nós cremos em Ti, em Ti esperamos,

pois só Tu tens palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68)

Mane nobiscum, Domine! Aleluia!



São João Paulo II. Mensagem Urbi et Orbe. Do Vaticano, 27 de Março de 2005, Páscoa da Ressurreição.

Semana Santa com são João Paulo II: Sábado Santo

 


Maternidade de Maria obtida aos pés da Cruz


1. "Jesus disse à Sua Mãe: 'Mulher, eis aí o teu filho'. Depois disse ao discípulo: 'Eis ai a tua mãe'." (Jo. 19, 26 s.).


Neste Ano Santo dirigimo-nos com mais ardor a Maria, porque um especialíssimo sinal da reconciliação da humanidade com Deus foi a missão, a Ela confiada no Calvário, de ser a Mãe de todos os remidos.


As circunstâncias em que esta maternidade de Maria foi proclamada, mostram a importância que o Redentor lhe atribuía. No momento mesmo em que se consumava o seu sacrifício, Jesus disse à Mãe aquelas palavras fundamentais: "Mulher, eis aí o teu filho", e ao discípulo: "Eis aí a tua Mãe" (Jo. 19. 26-27). E o Evangelista anota que, depois de as pronunciar, Jesus teve consciência de que tudo estava completado. O dom da Mãe era o dom final que Ele concedia à humanidade como fruto do seu sacrifício.

A descida do Senhor à mansão dos mortos

 


A descida do Senhor à mansão dos mortos


De uma antiga Homilia no grande Sábado Santo

(PG43,439.451.462-463)               (Séc.IV)


Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.


Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos.

Semana Santa com São João Paulo II: Sexta-feira Santa

 


A profundidade do sofrimento de Cristo


As Escrituras tinham que ser cumpridas. Eram muitos os textos messiânicos do Antigo Testamento que anunciavam os sofrimentos do futuro Ungido de Deus. De entre todos eles, é particularmente comovedor aquele que habitualmente se designa como Canto quarto do Servo de Javé, contido no Livro de Isaías. O profeta, que justamente é chamado «o quinto evangelista », dá-nos neste Canto a imagem dos sofrimentos do Servo, com um realismo tão vivo como se o contemplasse com os próprios olhos: com os olhos do corpo e com os do espírito. A paixão de Cristo torna-se, à luz dos versículos de Isaías, quase mais expressiva e comovente do que nas descrições dos próprios evangelistas. Eis como se nos apresenta o verdadeiro Homem das dores:

O poder do sangue de Cristo

 




O poder do Sangue de Cristo


Das Catequeses de São João Crisóstomo, bispo
(Cat. 3,13-19: SCh 50,174-177)                   (Séc.IV)

Queres conhecer o poder do sangue de Cristo? Voltemos às figuras que o profetizaram e recordemos a narrativa do Antigo Testamento: Imolai, disse Moisés, um cordeiro de um ano e marcai as portas com o seu sangue (cf. Ex 12,6-7). Que dizes, Moisés? O sangue de um cordeiro tem poder para libertar o homem dotado de razão? É claro que não, responde ele, não porque é sangue, mas por ser figura do sangue do Senhor. Se agora o inimigo, ao invés do sangue simbólico aspergido nas portas, vir brilhar nos lábios dos fiéis, portas do templo dedicado a Cristo, o sangue verdadeiro, fugirá ainda mais para longe.

Semana Santa com São João Paulo II: Quinta-feira Santa

 


1. "Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa, antes de padecer" (Lc 22, 15).


Com estas palavras, Cristo faz conhecer o significado profético da Ceia pascal, que está para celebrar com os discípulos no Cenáculo de Jerusalém.


Com a primeira leitura, tirada do Livro do Êxodo, a Liturgia pôs em evidência o fato de a Páscoa de Jesus se inscrever no contexto daquela da Antiga Aliança. Com ela os Israelitas faziam memória da ceia consumada pelos seus pais, no momento do êxodo do Egito, e da libertação da escravidão. O texto sagrado prescrevia que um pouco do sangue do cordeiro fosse posto nas duas ombreiras e na verga da porta das casas. E acrescentava como devia ser comido o cordeiro, isto é: "Tereis os rins cingidos, as sandálias nos pés e o bordão na mão... apressadamente... Passarei nesta noite através do Egito e ferirei de morte todos os primogénitos... O sangue servirá de sinal nas casas em que residis. Vendo o sangue, passarei adiante, e não sereis atingidos pelo flagelo destruidor" (Êx 12, 11-13).

O Cordeiro imolado libertou-nos da morte para a vida

 


O Cordeiro imolado libertou-nos da morte para a vida

Da Homilia sobre a Páscoa, de Melitão de Sardes, bispo
(N.65-71: SCh123,94-100) 
(Séc.II)


Muitas coisas foram preditas pelos profetas sobre o mistério da Páscoa, que é Cristo, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém (Gl 1,5). Ele desceu dos céus à terra para curar a enfermidade do homem; revestiu-se da nossa natureza no seio da Virgem e se fez homem; tomou sobre si os sofrimentos do homem enfermo num corpo sujeito ao sofrimento, e destruiu as paixões da carne; seu espírito, que não pode morrer, matou a morte homicida.

Semana Santa com São João Paulo II: Quarta-feira Santa



Os eventos centrais da nossa redenção 

Queridos irmãos e irmãs no Senhor!


Hoje, Quarta-feira Santa, convida-nos a meditar juntos sobre as realidades que vamos reviver durante esta semana, chamada "santa" porque nela comemoramos os eventos centrais da nossa redenção. Na vida da humanidade, nada mais significativo e valioso ocorreu. A morte e a ressurreição de Cristo são os eventos mais importantes da história.


Começa amanhã o tríduo da paixão e ressurreição do Senhor, que - como está escrito no Missal Romano - "uma vez que Jesus Cristo realizou a obra da redenção dos homens e a glorificação perfeita de Deus principalmente por seu mistério pascal, pelo qual morrendo destruiu nossa morte e ressuscitando restaurou a vida, o tríduo santo pascal da paixão e ressurreição do Senhor é o ponto culminante de todo o ano litúrgico. A preeminência que o domingo tem na semana é a mesma que a solenidade da Páscoa tem no ano litúrgico" (Normas gerais, n. 18).


Portanto, desejo exortá-los a viver intensamente os próximos dias, para que deixem uma marca profunda em suas mentes que oriente suas vidas. Entrem com empenho na atmosfera mística do tríduo pascal: na manhã da "Quinta-feira Santa", em todas as catedrais do mundo, o bispo celebra junto com os padres da diocese a "Missa Crismal", para comemorar a instituição do sacerdócio e para consagrar os óleos sagrados necessários para a ordenação, a confirmação e a unção dos enfermos. Depois, à tarde, na Missa "in Cena Domini", vocês podem reviver com profunda fé a instituição da Eucaristia, prestando em seguida seu tributo de amor e adoração ao Santíssimo Sacramento e respondendo assim ao convite de Jesus na dramática noite de sua agonia no Jardim: "Fiquem aqui e vigiem comigo" (Mt 26, 38). Em seguida, a Sexta-feira Santa é um dia de grande comoção, porque a Igreja nos convida a ouvir novamente a narrativa da Paixão segundo João, a adorar a Cruz, a orar por toda a Igreja, a participar com a Virgem Dolorosa no Sacrifício do Gólgota. Finalmente, as maravilhosas cerimônias do Sábado Santo enchem o coração de alegria suave com a bênção do fogo, a procissão do círio pascal na penumbra da igreja e o acendimento das velas ao som do "Lumen Christi", o solene pregão, o canto das ladainhas, a bênção da água batismal e, finalmente, a "Missa do Aleluia" com o canto festivo do "Glória" e a comunhão eucarística com Cristo ressuscitado. Todo o tríduo, permeado por profunda tristeza e alegria mística, desemboca então na solenidade central do Domingo de Páscoa, onde os eventos fundamentais da "história da salvação", ou seja, a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio, a Paixão e a Morte na cruz e a gloriosa ressurreição, transbordam em nossos corações com o hino da exultação e gratidão.


Considerem como um dever participar dos ritos da Semana Santa, deixando de lado outros interesses e compromissos, convencidos de que a liturgia realmente purifica os sentimentos, eleva as aspirações, faz sentir a beleza da fé cristã e o desejo do céu.


O cristão é aquele que compreendeu que é Cristo quem salva a humanidade e, portanto, não pode viver sem a Páscoa. Desde os primeiros tempos da Igreja, a Páscoa foi celebrada de forma eminente, a festa por "excelência": no terceiro século começou a ter sua fisionomia típica, com a celebração comunitária dos batismos na noite de Páscoa: era a teologia batismal de São Paulo que estava emergindo, entendida como a incorporação à morte e sepultamento de Cristo, para depois ressurgir com Ele para a nova vida da "graça". Celebrar a Páscoa significa encontrar-se com Cristo para ressurgir com Ele para a nova vida, buscando as coisas do alto... pensando nas coisas do alto (cf. Col 3, 1).


Recordando agora especialmente o dia de amanhã, Quinta-feira Santa, desejo terminar convidando-os de coração a amar cada vez mais seus sacerdotes. A vocação sacerdotal é certamente paz e alegria, mas também cruz e martírio. Com efeito, o sacerdote é totalmente consagrado a Cristo e age com os mesmos poderes e a mesma missão Dele: aqui está sua grandeza e dignidade, mas também sua paixão e agonia. Portanto, estejam unidos aos seus sacerdotes, amem-nos, estimem-nos, apoiem-nos e, sobretudo, rezem por eles.

Como sabem, enviei-lhes uma "Carta", que evoca o Santo Cura d'Ars, neste segundo centenário de seu nascimento. Pois bem, precisamente João Batista Vianney dizia: "Como é grande um sacerdote! O sacerdote só será verdadeiramente compreendido no céu. Se o compreendêssemos na terra, morreríamos não de espanto, mas de amor. Todos os outros benefícios de Deus não nos serviriam de nada sem o sacerdote. Para que serve uma casa cheia de ouro se não houver alguém que possa abrir a porta para nós? O sacerdote possui a chave dos tesouros celestiais e nos abre a porta; ele é o mordomo do bom Deus; o administrador de seus bens... Depois de Deus, o sacerdote é tudo!" (Alfred Monnin, Spirito del Curato d'Ars, Ares, Roma, 1956, pág. 82).


Que a Virgem Santíssima, que seguiu Jesus em sua paixão e esteve presente ao pé da cruz em sua morte, os acompanhe no caminho do tríduo em direção à alegria jubilosa da Páscoa, para a qual envio minhas calorosas felicitações.


Com minha bênção apostólica!

A plenitude do amor

 


A plenitude do amor


Do Tratado sobre o Evangelho de São João, de Santo Agostinho, bispo
(Tract. 84,1-2:CCL36,536-538)
(Séc.V)


Irmãos caríssimos, o Senhor definiu a plenitude do amor com que devemos amar-nos uns aos outros, quando disse: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). Daqui se conclui o que o mesmo evangelista João diz em sua epístola: Jesus deu a sua vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos (1Jo 3,16), amando-nos verdadeiramente uns aos outros, como ele nos amou até dar a sua vida por nós.


É certamente a mesma coisa que se lê nos Provérbios de Salomão: Quando te sentares à mesa de um poderoso, olha com atenção o que te é oferecido; e estende a tua mão, sabendo que também deves preparar coisas semelhantes (cf. Pr 23,1-2 Vulg.).

Semana Santa com São João Paulo II: Terça-feira Santa

 


O sofrimento vencido pelo amor


O homem « perece », quando perde a « vida eterna ». O contrário da salvação não é, pois, somente o sofrimento temporal, qualquer sofrimento, mas o sofrimento definitivo: a perda da vida eterna, o ser repelido por Deus, a condenação. O Filho unigénito foi dado à humanidade para proteger o homem, antes de mais nada, deste mal definitivo e do sofrimento definitivo. Na sua missão salvífica, portanto, o Filho deve atingir o mal nas suas próprias raízes transcendentais, a partir das quais se desenvolve na história do homem. Estas raízes transcendentais do mal estão pegadas ao pecado e à morte: elas estão, de fato, na base da perda da vida eterna. A missão do Filho unigénito consiste em vencer o pecado e a morte. E Ele vence o pecado com a sua obediência até à morte, e vence a morte com a sua ressurreição.

Há uma só morte que resgata o mundo e uma só ressurreição dos mortos

 


Há uma só morte que resgata o mundo e uma só ressurreição dos mortos


Do Livro sobre o Espírito Santo, de São Basílio Magno, bispo
(Cap.15,35: PG32,127-130)
(Séc.IV)


O desígnio de nosso Deus e Salvador em relação ao homem consiste em levantá-lo de sua queda e fazê-lo voltar, do estado de inimizade ocasionado por sua desobediência, à intimidade divina. A vinda de Cristo na carne, os exemplos de sua vida apresentados pelo Evangelho, a paixão, a cruz, o sepultamento e a ressurreição não tiveram outro fim senão salvar o homem, para que, imitando a Cristo, ele recuperasse a primitiva adoção filial.

Semana Santa com são João Paulo II: Segunda-feira Santa

 


 A nossa solidariedade com Cristo que sofre


1. Durante a Quaresma, a Igreja, referindo-se às palavras de Cristo, ao que ensinaram os profetas do Antigo Testamento, e à própria tradição de séculos, exorta-nos a uma especial solidariedade com todos quantos sofrem e experimentam dalgum modo a pobreza, a miséria, a injustiça e a perseguição. Disso falámos na quarta-feira passada, continuando as nossas reflexões quaresmais sobre o actual significado da penitência que se exprime por meio da oração, do jejum e da esmola. A exortação à solidariedade, em nome de Cristo, com todas as tribulações e as necessidades dos nossos irmãos, e não apenas com aqueles que entram no raio do nosso olhar e da nossa mão, mas com todos, mesmo com os gritos das almas e dos corpos atormentados, é quase a essência mesma de viver espiritualmente o período da Quaresma na existência da Igreja. Na última semana da Quaresma — depois de tais preparações (e só depois delas) — a Igreja exorta-nos a uma particular e excepcional solidariedade com o próprio Cristo que sofre. Embora nos acompanhe, durante todas as semanas deste período, o pensamento da paixão de Cristo, só todavia esta semana, a única no sentido pleno da palavra, é a semana da Paixão do Senhor. É a Semana Santa. A chamada a uma particular e excepcional solidariedade com Cristo que sofre faz-se sentir no fim do período quaresmal. Faz-se sentir quando está já desenvolvida em nós a atitude de conversão espiritual, e particularmente o sentido de solidariedade com todos os nossos irmãos que sofrem. Corresponde isto à lógica da revelação: o amor de Deus é o primeiro e maior mandamento, mas não pode cumprir-se fora do amor do homem. Não se cumpre sem este.


2. Ao mesmo tempo os mais profundos e mais fortes impulsos do amor devem brotar desta Semana, na qual somos chamados a uma particular e excepcional solidariedade com Cristo, na sua paixão e morte na Cruz. Deus de facto amou tanto o mundo — o homem no mundo—que lhe deu o seu Filho único (Jo. 3, 6). Deu-o à paixão e à morte. Contemplando esta revelação de amor que parte de Deus e se estende até ao homem no mundo, não podemos deter-nos mas devemos retomar o caminho «do regresso»: o caminho do coração humano que vai até Deus, o caminho do amor. A Quaresma — e sobretudo a Semana Santa - deve ser, cada ano da nossa vida na Igreja, um novo início deste «caminho do amor». A Quaresma identifica-se, como vemos, com o ponto culminante da revelação do amor de Deus para com o homem.


Portanto a Igreja exorta-nos a determo-nos, de modo particularíssimo e excepcional, ao lado de Cristo, só junto d'Ele. Exorta-nos — como São Paulo — (pelo menos nesta semana) a não sabermos coisa alguma ... a não ser Jesus Cristo e Este crucificado (1 Cor. 2, 2). Esta exortação dirige-a a Igreja a todos: não só à inteira comunidade dos crentes, a todos os seguidores de Cristo, mas também a todos os outros. Parar diante de Cristo que sofre, encontrar a pessoa em si mesma a solidariedade com Ele — eis o dever e a necessidade de todo o coração humano, eis a verificação da sensibilidade humana. Nisto se manifesta a nobreza do homem. A Semana Santa é pois o tempo da mais larga abertura da Igreja para a humanidade e juntamente o tempo-vértice da evangelização: através de tudo o que durante estes dias a Igreja pensa e diz de Cristo, através do modo com que vive a Sua paixão e morte, através da sua solidariedade com Ele, a Igreja volta, ano após ano, às raízes mesmas da sua missão e do seu anúncio salvador. E se nesta Semana Santa a Igreja, mais que falar, se cala, fá-lo para que possa tanto mais falar o próprio Cristo. Aquele Cristo a quem o Papa Paulo VI chamou o primeiro e perene Evangelizador (Cfr. Evangelii Nuntiandi, 7).


3. A evangelização pratica-se com a ajuda das palavras. Precisamente as palavras de Cristo pronunciadas durante a Sua paixão têm força enorme de expressão. Pode-se também dizer que elas são lugar de especial encontro com cada homem; são a ocasião e o motivo para manifestar grande solidariedade. Quantas vezes voltamos àquele que os Evangelistas registaram como fio condutor da oração de Cristo no jardim das Oliveiras: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálix (Mt. 26, 39)? Não sente deste modo cada homem no sofrimento, na tribulação, diante da cruz: «Passe de mim»? Quão profunda verdade humana está encerrada nesta frase! Cristo como verdadeiro homem, sentiu repugnância diante do sofrimento: Começou a entristecer-se e a angustiar-se (Mt. 26, 37) e disse: «Passe de mim ...», não venha, não se encontre comigo! É necessário aceitar toda a expressão humana, toda a verdade humana destas palavras, para as saber unir com as de Cristo: Se é possível, passe de mim este cálix, todavia não seja como eu quero mas como tu queres (Mt. 26, 39). Todo o homem, encontrando-se diante do sofrimento, encontra-se diante dum desafio ... É este apenas um desafio da sorte? Cristo dá a resposta dizendo: «Como tu queres». Não se dirige a uma sorte, a uma «sorte cega». Fala a Deus. Ao Pai. As vezes esta resposta não nos basta, porque não é a última palavra, mas a primeira. Não podemos compreender nem o Getsémani nem o Calvário, senão no contexto do acontecimento pascal completo. De todo o mistério.


4. Nas palavras da paixão de Cristo há um encontro particularmente intenso do humano com o divino. Já o demonstram as palavras do Getsémani. Depois, Cristo calar-se-á sobretudo. Dirá uma frase a Judas. Depois àqueles que Judas conduziu ao jardim do Getsémani para o prenderem. Depois ainda a Pedro. Diante do Sinédrio não se defende, mas dá testemunho. Assim também diante de Pilatos. E diante de Herodes não respondeu nada (Lc. 23, 9). Durante o suplício realizam-se as palavras de Isaías: Era como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha emudecida nas mãos do tosquiador, não abriu a sua boca (Is. 53, 7). As suas últimas palavras caem do alto da Cruz. Explicam-se no seu conjunto com o decurso do acontecimento, com o horrível suplício e ao mesmo tempo, por meio delas, apesar da sua brevidade e concisão, transparece o que é «divino» e «salvífico». Compreendemos o sentido «salvífico» das palavras dirigidas a sua Mãe, a João, ao bom ladrão, como também das palavras que se referiam aos que o crucificaram. Perturbadoras são as últimas palavras dirigidas ao Pai: último eco e juntamente quase continuação da oração do Getsémani. Cristo diz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste (Mt. 27, 46), repetindo as palavras do Salmista (Cfr. Sl. 21 (22), 1). No Getsémani dissera: Se é possível, passe de mim este cálice (Mt. 26, 39). E agora, do alto da cruz, confirmou publicamente que o «cálix» não foi afastado, que tem de o beber até ao fundo. Tal é a vontade do Pai. De facto, o eco da oração do Getsémani é esta palavra: Tudo está consumado (Jo. 19. 30). E, por fim, esta só: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito (Lc. 23, 46).


A agonia de Cristo. Primeiro, a moral no Getsémani. Depois, a moral e física ao mesmo tempo, na Cruz. Ninguém, como Cristo, manifestou tão profundamente o tormento humano de morrer, exatamente porque era Filho de Deus; porque o «humano» e o «divino» constituíam n'Ele uma unidade misteriosa. Por isso, também aquelas palavras da paixão de Cristo, tão penetrantemente humanas, constituirão sempre uma revelação da «divindade» que em Cristo se ligou à humanidade, na plenitude da unidade pessoal. Pode-se dizer: era necessária a morte de Deus-Homem, para que nós, herdeiros do pecado original, víssemos o que é o drama da morte do homem.


Devemos, nesta Semana Santa, chegar a uma solidariedade particular com Cristo que sofre, que é crucificado e agoniza, para reencontrar na nossa vida a proximidade do que é «divino» e do que é «humano». Deus decidiu falar-nos com a linguagem do amor que é mais forte que a morte. Recebamos tal mensagem.


São João Paulo II, Audiência Pública de 11 de abril de 1979.

Gloriemo-nos também nós na Cruz do Senhor!

 


Gloriemo-nos também nós na Cruz do Senhor!

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo
(Sermo Guelferbytanus 3:PLS 2,545-546)
(Séc.V)


A Paixão de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é para nós penhor de glória e exemplo de paciência.

Haverá alguma coisa que não possam esperar da graça divina os corações dos fiéis, pelos quais o Filho unigênito de Deus, eterno como o Pai, não apenas quis nascer como homem entre os homens, mas quis também morrer pelas mãos dos homens que tinha criado?

Grandes coisas o Senhor nos promete no futuro! Mas o que ele já fez por nós e agora celebramos é ainda muito maior. Onde estávamos ou quem éramos, quando Cristo morreu por nós pecadores? Quem pode duvidar que ele dará a vida aos seus fiéis, quando já lhes deu até a sua morte? Por que a fraqueza humana ainda hesita em acreditar que um dia os homens viverão em Deus?

Muito mais incrível é o que já aconteceu: Deus morreu pelos homens.

Quem é Cristo senão aquele que no princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus: e a Palavra era Deus? (Jo 1,1). Essa Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Se não tivesse tomado da nossa natureza a carne mortal, Cristo não teria possibilidade de morrer por nós. Mas deste modo o imortal pôde morrer e dar sua vida aos mortais. Fez-se participante de nossa morte para nos tornar participantes da sua vida. De fato, assim como os homens, pela sua natureza, não tinham possibilidade alguma de alcançar a vida, também ele, pela sua natureza, não tinha possibilidade alguma de sofrer a morte.

Por isso entrou, de modo admirável, em comunhão conosco: de nós assumiu a mortalidade, o que lhe possibilitou morrer; e dele recebemos a vida.

Portanto, de modo algum devemos envergonhar-nos da morte de nosso Deus e Senhor; pelo contrário, nela devemos confiar e gloriar-nos acima de tudo. Pois tomando sobre si a morte que em nós encontrou, garantiu com total fidelidade dar-nos a vida que não podíamos obter por nós mesmos.

Se ele tanto nos amou, a ponto de, sem pecado, sofrer por nós pecadores, como não dará o que merecemos por justiça, fruto da sua justificação? Como não dará a recompensa aos justos, ele que é fiel em suas promessas e, sem pecado, suportou o castigo dos pecadores?

Reconheçamos corajosamente, irmãos, e proclamemos bem alto que Cristo foi crucificado por amor de nós; digamos não com temor, mas com alegria, não com vergonha, mas com santo orgulho.

O apóstolo Paulo compreendeu bem esse mistério e o proclamou como um título de glória. Ele, que teria muitas coisas grandiosas e divinas para recordar a respeito de Cristo, não disse que se gloriava dessas grandezas admiráveis – por exemplo, que sendo Cristo Deus como o Pai, criou o mundo; e, sendo homem como nós, manifestou o seu domínio sobre o mundo – mas afirmou: Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo (Gl 6,14).

Semana Santa com São João Paulo II: Domingo de Ramos

 


 1. "Auctor fidei nostrae..." — "Autor da nossa fé" (Cfr. Heb 12, 2. 2): com estas palavras, provenientes da Carta aos Hebreus, dirigimo-nos, no início da Semana Santa, a Cristo. A Semana Santa — Semana da Paixão do Senhor — conduz-nos às nascentes mesmas da nossa fé. O próprio Cristo é esta nascente. Ele é Quem obteve de modo absoluto a nossa salvação, precisamente mediante a Cruz. Precisamente pelo facto de ter aceitado a herança do Getsémani e do Calvário. Precisamente pelo facto de ter sido preso, processado, flagelado e coroado de espinhos. Precisamente pelo facto de ter sido condenado e de ter caído sob o peso da Cruz. E que se há-de dizer do terrível tormento da agonia na Cruz? Sigamos os indícios dos seus sofrimentos, com a máxima atenção detendo-nos em cada palavra, por Ele pronunciada: no cenáculo, no jardim de Getsémani, perante o Sinédrio, perante Pilatos e por fim na Cruz. Existe em tudo isto uma assombrosa coesão: a unidade do testemunho, da missão.


"Auctor fidei nostrae".

Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel

 

Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel

 

Dos Sermões de Santo André de Creta, bispo

(Oratio 9 in ramos palmarum: PG 97,990-994)                 (Séc.VI)




Vinde, subamos juntos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo, que hoje volta de Betânia e se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação.

Caminha o Senhor livremente para Jerusalém, ele que desceu do céu por nossa causa – prostrados que estávamos por terra – para elevar-nos consigo bem acima de toda autoridade, poder, potência e soberania ou qualquer título que se possa mencionar (Ef 1,21), como diz a Escritura.

O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, diz a Escritura, nem gritará, e ninguém ouvirá sua voz (Mt 12,19; cf. Is 42,2). Pelo contrário, será manso e humilde, e se apresentará com vestes pobres e aparência modesta.

Acompanhemos o Senhor, que corre apressadamente para a sua Paixão e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas para nos prostrarmos a seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que se aproxima, e acolhermos aquele Deus que lugar algum pode conter.

Alegra-se Jesus Cristo, porque deste modo nos mostra a sua mansidão e humildade, e se eleva, por assim dizer, sobre o ocaso (cf. Sl 67,5) de nossa infinita pequenez; ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-se um de nós, para nos elevar e nos reconduzir a si.

Diz um salmo que ele subiu pelo mais alto dos céus ao Oriente (cf. Sl 67,34), isto é, para a excelsa glória da sua divindade, como primícias e antecipação da nossa condição futura; mas nem por isso abandonou o gênero humano, porque o ama e quer elevar consigo a nossa natureza, erguendo-a do mais baixo da terra, de glória em glória, até torná-la participante da sua sublime divindade.

Portanto, em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram o olhar por pouco tempo, mas depressa perdem o seu verdor, prostremo-nos aos pés de Cristo. Revestidos de sua graça, ou melhor, revestidos dele próprio, – vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl 3,27) – prostremo-nos a seus pés como mantos estendidos.

Éramos antes como escarlate por causa dos nossos pecados,mas purificados pelo batismo da salvação, nos tornamos brancos como a lã. Por conseguinte, não ofereçamos mais ramos e palmas ao vencedor da morte, porém o prêmio da sua vitória.

Agitando nossos ramos espirituais, o aclamemos todos os dias, juntamente com as crianças, dizendo estas santas palavras: “Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel”.

São José, o homem que sonha


 

São José, homem que "sonha"


Estimados irmãos e irmãs, bom dia!


Hoje gostaria de me concentrar na figura de São José como homem que sonha. Na Bíblia, como nas culturas dos povos antigos, os sonhos eram considerados um meio pelo qual Deus se revelava (Cf. Gn 20, 3; 28, 12; 31, 11.24; 40, 8; 41, 1-32; Nm 12, 6; 1 Sm 3, 3-10; Dn 2; 4; Job 33, 15.).  O sonho simboliza a vida espiritual de cada um de nós, o espaço interior, que cada um é chamado a cultivar e preservar, onde Deus se manifesta e muitas vezes nos fala. Mas devemos também dizer que dentro de cada um não existe apenas a voz de Deus: existem muitas outras vozes. Por exemplo, as vozes dos nossos receios, as vozes das experiências passadas, as vozes das esperanças; e há também a voz do maligno que nos quer enganar e confundir. Por conseguinte, é importante ser capaz de reconhecer a voz de Deus no meio de outras vozes. José demonstra que sabe cultivar o silêncio necessário e, sobretudo, tomar as decisões corretas perante a Palavra que o Senhor lhe dirige interiormente. Hoje, será bom para nós retomarmos os quatro sonhos do Evangelho que o têm como protagonista, para compreender como nos colocarmos perante a revelação de Deus. O Evangelho narra-nos quatro sonhos de José.

Preparação para a Semana Santa com São João Paulo II: A esmola

 


 A esmola: sinal universal de justiça e solidariedade


Irmãs e Irmãos caríssimos


1. Desejo voltar mais uma vez aos assuntos das nossas três meditações quaresmais: oração, jejum e esmola; sobretudo a esta última. Se a oração, o jejum e a esmola formam a nossa conversão a Deus, conversão que é expressa de modo mais exato com o termo grego «metánoia», se elas constituem o principal tema da liturgia quaresmal, um estudo penetrante desta liturgia persuade-nos que a «esmola» ocupa nesta um lugar especial. Procurámos explicá-lo brevemente na quarta-feira passada, apoiando-nos no ensinamento de Cristo e dos Profetas do Antigo Testamento, que ressoa muitas vezes na liturgia quaresmal.

A Paixão com São José

 



Estamos chegando ao final da Quaresma, que devemos ter aproveitado como caminho favorável de conversão, oferecido a nós pelo Senhor e pela sua Igreja. Nesse ano nos propomos a fazer esse caminho acompanhados pelo glorioso São José.


Uma das práticas devocionais da tradição popular da Igreja são as 7 dores e alegrias de São José e nessa última catequese da Quaresma com São José vamos nos aproximar das dores do Santo Patriarca, e perceber através delas como o Chefe da Santa Família pôde estar unido, antecipadamente, ao mistério da Páscoa de Jesus Cristo.

Preparação para a Semana Santa com são João Paulo II: O jejum

 



 O jejum penitencial e o desenvolvimento da pessoa


1. Ordenai um jejum (Jl. 1, 14). São as palavras que ouvimos na primeira leitura de Quarta-feira de Cinzas. Escreveu-as o Profeta Joel, e a Igreja, em conformidade com elas, estabelece a prática da Quaresma, ordenando o jejum. Hoje a prática da Quaresma, definida por Paulo VI na Constituição «Poenitemini», está notavelmente mitigada em comparação com o que era antigamente. Nesta matéria o Papa deixou muito à decisão das Conferências Episcopais de cada país, às quais, por conseguinte, toca a missão de adaptar as exigências do jejum às circunstâncias em que se encontram as respectivas sociedades. Recordou também que a essência da penitência quaresmal é constituída não só pelo jejum, mas também pela oração e pela esmola (obra de misericórdia). É necessário pois decidir segundo as circunstâncias, uma vez que o jejum pode mesmo ser «substituído» por obras de misericórdia e pela oração. A finalidade deste período especial na vida da Igreja é, sempre e em toda a parte, a penitência, isto é, a conversão para Deus. A penitência, de fato, entendida como conversão, isto é «metánoia», forma um conjunto que a tradição do Povo de Deus já na Antiga Aliança, e em seguida o próprio Cristo, ligaram em certo modo à oração, à esmola e ao jejum.


Porquê o jejum?

A figura de são José nos Evangelhos

 


A figura de S. José no Evangelho


Tanto S. Mateus como S. Lucas nos falam de S. José como varão descendente de uma estirpe ilustre: a de David e de Salomão, reis de Israel. Historicamente, os pormenores dessa descendência são algo confusos. Não sabemos qual das duas genealogias que os evangelistas trazem corresponde a Maria - Mãe de Jesus, segundo a carne - e qual a S. José, que era seu Pai segundo a lei judaica. Nem sabemos se a cidade natal de José era Belém, onde se dirigiu para se recensear, ou Nazaré, onde vivia e trabalhava.

Preparação para a Semana Santa com são João Paulo II: a Oração

 


 JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 14 de Março de 1979



A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça


1. Durante a Quaresma muitas vezes chegam aos nossos ouvidos as palavras «oração, jejum e esmola», que já tive de recordar na Quarta-feira de Cinzas. Estamos habituados a pensar nelas como em obras piedosas e boas, que todo o cristão deve realizar sobretudo neste período. Tal modo de pensar é exato, mas não completo. A oração, a esmola e o jejum precisam de mais profunda compreensão, se queremos inserir estes atos mais profundamente na nossa vida, e não considerá-los simplesmente como práticas passageiras, que só exigem de nós algo de momentâneo, ou só momentaneamente nos privam dalguma coisa. Com este modo de pensar não chegamos ainda ao verdadeiro sentido e à verdadeira força que a oração, o jejum e a esmola têm no processo da conversão a Deus e da nossa maturação espiritual: uma anda ao mesmo passo que a outra. Chegamos à maturidade espiritual convertendo-nos a Deus, e a conversão realiza-se por meio do jejum e da esmola, devidamente entendidos.

O papel de são José na história da salvação



Contudo, o contexto mariano do Angelus convida a deter-se hoje em veneração sobre a figura do esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria e Padroeiro da Igreja universal. Apraz-me recordar que era muito devoto de São José também o amado Papa João Paulo II, o qual lhe dedicou a Exortação apostólica Redemptoris Custos Guarda do Redentor e certamente experimentou a sua assistência na hora da morte.

Guarda fiel e providente

 




Guarda fiel e providente


É esta a regra geral de todas as graças especiais concedidas a qualquer criatura racional: quando a providência divina escolhe alguém para uma graça particular ou estado superior, também dá à pessoa assim escolhida todos os carismas necessários para o exercício de sua missão.


Isto verificou-se de forma eminente em São José, pai adotivo do Senhor Jesus Cristo e verdadeiro esposo da rainha do mundo e senhora dos anjos. Com efeito, ele foi escolhido pelo Pai eterno para ser o guarda fiel e providente dos seus maiores tesouros: o Filho de Deus e a Virgem Maria. E cumpriu com a máxima fidelidade sua missão. Eis por que o Senhor lhe disse: Servo bom e fiel! Vem participar da alegria do teu Senhor! (Mt 25,21).

São José, o carpinteiro

 



São José o carpinteiro


Estimados irmãos e irmãs, bom dia!


Os evangelistas Mateus e Marcos, definem José como “carpinteiro” ou “marceneiro”. Escutámos anteriormente que o povo de Nazaré, ao ouvir Jesus falar, perguntava-se: «Não é este o filho do carpinteiro?» (13, 55; cf. Mc 6, 3). Jesus praticou o ofício do pai.


O termo grego tekton, utilizado para indicar o trabalho de José, foi traduzido de várias maneiras. Os Padres latinos da Igreja traduziram-no como “carpinteiro”. Mas tenhamos presente que na Palestina do tempo de Jesus, a madeira era utilizada não só para fazer arados e móveis vários, mas também para construir casas, que tinham armações de madeira e telhados em terraços feitos de vigas ligadas entre si com ramos e terra.

Homem do silêncio

 


São José, homem do silêncio


Estimados irmãos e irmãs, bom dia!


Continuemos o nosso caminho de reflexão sobre São José. Depois de ter ilustrado o ambiente em que ele viveu, o seu papel na história da salvação e o seu ser justo e esposo de Maria, hoje gostaria de examinar outro aspeto importante da sua figura: o silêncio. Hoje, muitas vezes precisamos de silêncio. O silêncio é importante. Estou impressionado com um verso do Livro da Sabedoria que foi lido a pensar no Natal, que diz: “Quando a noite estava no silêncio mais profundo, a tua palavra desceu à terra”. No momento de maior silêncio Deus manifestou-se. É importante pensar no silêncio nesta época na qual ele parece ter tão pouco valor.

O matrimônio com Maria

 



O matrimônio com Maria


2. «José, filho de David, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1, 20-21).


Nestas palavras está contido o núcleo central da verdade bíblica sobre São José; é o momento da sua existência ao qual se referem em particular os Padres da Igreja.

São José e a criatividade da caridade

 



O Papa João Paulo II, em 15 de agosto de 1989, oferecia à Igreja a belíssima Exortação Apostólica Redemptoris custos, sobre a figura e a missão de São José na vida de Cristo e da Igreja. Dentre os vários aspectos abordados por São João Paulo II, no número 16, apresenta-se a temática do sustento e da educação de Jesus, em Nazaré, sob o olhar de Maria e de José, que “tinha a alta função de ‘criá-lo’; ou seja, de alimentar, vestir e instruir Jesus na Lei e num ofício, em conformidade com os deveres estabelecidos para o pai [de família]”. São José era o PAI PROVIDENTE.

São José, homem justo e esposo de Maria

 



José, homem justo e esposo de Maria


Estimados irmãos e irmãs, bom dia!


Continuemos o nosso caminho de reflexão sobre a figura de São José. Hoje gostaria de explorar o seu ser “justo” e “noivo de Maria”, e assim dar uma mensagem a todos os noivos, incluindo os recém-casados. Muitos acontecimentos ligados a José são contados nos evangelhos apócrifos, ou seja, evangelhos não canónicos, que também influenciaram a arte e vários lugares de culto. Estes escritos, que não estão na Bíblia  –  são histórias que a piedade cristã narrava naquele tempo –  respondem ao desejo de preencher as lacunas narrativas dos Evangelhos canónicos, aqueles que estão na Bíblia, os quais nos dão tudo o que é essencial para a fé e a vida cristã.

São José na história da salvação

 



São José na história da salvação


Estimados irmãos e irmãs, bom dia!


Na quarta-feira passada começámos o ciclo de catequeses sobre a figura de São José – o ano dedicado a ele está a findar. Hoje continuamos este percurso centrando-nos no seu papel na história da salvação.


Jesus é referido nos Evangelhos como «filho de José» (Lc 3, 23; 4, 22; Jo 1, 45; 6, 42) e «filho do carpinteiro» (Mt 13, 55; Mc 6, 3). Os Evangelistas Mateus e Lucas, ao narrarem a infância de Jesus, dão espaço ao papel de José. Ambos compõem uma «genealogia» para realçar a historicidade de Jesus. Mateus, dirigindo-se sobretudo aos judeus-cristãos, parte de Abraão e chega a José, definido como «o esposo de Maria, de quem nasceu Jesus, que se chama Cristo» (1, 16). Lucas, por sua vez, remonta até Adão, começando diretamente por Jesus, que «era filho de José», mas especifica: «como se supunha» (3, 33). Portanto, ambos os Evangelistas apresentam José não como o pai biológico, mas como o pai de Jesus a pleno título. Através dele, Jesus cumpre a história da aliança e da salvação entre Deus e o homem. Para Mateus esta história começa com Abraão, para Lucas com a própria origem da humanidade, isto é, com Adão.

O ambiente em que vivia

 



São José e o ambiente em que viveu

 


Estimados irmãos e irmãs, bom dia!


A 8 de dezembro de 1870, o Beato Pio IX proclamou São José padroeiro da Igreja universal. Depois de 150 anos daquele evento, estamos a viver um ano especial dedicado a São José, e na Carta Apostólica Patris corde recolhi algumas reflexões sobre a sua figura. Nunca como hoje, neste tempo marcado por uma crise global com diferentes componentes, ele pode ser apoio, conforto e orientação para nós. Por isso decidi dedicar-lhe um ciclo de catequeses, que espero nos possa ajudar ulteriormente a deixar-nos iluminar pelo seu exemplo e pelo seu testemunho. Durante algumas semanas falaremos de São José.


Na Bíblia há mais de dez personagens com o nome de José. O mais importante de todos é o filho de Jacob e Raquel, que, através de várias vicissitudes, de escravo, tornou-se a segunda pessoa mais importante no Egito depois do Faraó (cf. Gn 37-50). O nome José em hebraico significa “Deus aumente, Deus faça crescer”. É um desejo, uma bênção baseada na confiança na providência e refere-se especialmente à fecundidade e ao crescimento dos filhos. De facto, este mesmo nome revela-nos um aspecto essencial da personalidade de José de Nazaré. Ele é um homem cheio de fé na providência: acredita na providência de Deus, tem fé na providência de Deus. Toda a sua ação, narrada no Evangelho, é ditada pela certeza de que Deus “faz crescer”, que Deus “aumenta”, que Deus “acrescenta”, ou seja, que Deus providencia à continuação do seu desígnio de salvação. E nisto, José de Nazaré é muito parecido com José do Egito.


As principais referências geográficas relativas a José – Belém e Nazaré – também desempenham um papel importante na compreensão da sua figura.


No Antigo Testamento, a cidade de Belém é chamada Beth Lechem, “Casa do pão”, ou também Efrata, devido à tribo que se estabeleceu naquele território. No entanto, em árabe, o nome significa “Casa da carne”, provavelmente devido ao grande número de rebanhos de ovinos e caprinos na área. Não foi por acaso, de facto, que quando Jesus nasceu, os pastores foram as primeiras testemunhas do acontecimento (cf. Lc 2, 8-20). À luz da história de Jesus, estas alusões ao pão e à carne referem-se ao mistério da Eucaristia: Jesus é o pão vivo que desce do céu (cf. Jo 6, 51). Ele próprio dirá de si: «Quem comer a minha carne e beber o meu sangue viverá eternamente» (Jo 6, 54).


Belém é mencionada várias vezes na Bíblia, desde o Livro do Génesis. Belém está também ligada à história de Rute e Noemi, narrada no pequeno, mas maravilhoso Livro de Rute. Rute deu à luz um filho chamado Obed, do qual por sua vez nasceu Jessé, o pai do rei David. E José, o pai legal de Jesus, descende preciosamente da linhagem de David. Então o profeta Miqueias predisse grandes coisas sobre Belém: «E tu, Bet-Ephrata, tão pequena entre as famílias de Judá, é de ti que me há de sair aquele que governará Israel» (Mi 5, 1). O evangelista Mateus retomará esta profecia e ligá-la-á à história de Jesus como o seu evidente cumprimento.


De fato, o Filho de Deus não escolheu Jerusalém como o lugar da sua encarnação, mas Belém e Nazaré, duas aldeias periféricas, longe do clamor da crônica e do poder da época. Contudo, Jerusalém era a cidade amada pelo Senhor (cf. Is 62, 1-12), a «cidade santa» (Dn 3, 28), escolhida por Deus para lá habitar (cf. Zc 3, 2; Sl 132, 13). Ali, com efeito, habitavam os doutores da Lei, os escribas e fariseus, os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo (cf. Lc 2, 46; Mt 15, 1; Mc 3, 22; Jo 1, 19; Mt 26, 3).


É por isso que a escolha de Belém e Nazaré nos diz que a periferia e a marginalidade são prediletas a Deus. Jesus não nasceu em Jerusalém com toda a corte… não: nasceu numa periferia e transcorreu a sua vida, até aos 30 anos, naquela periferia, trabalhando como carpinteiro, como José. Para Jesus, as periferias e a marginalidade são prediletas. Não levar esta realidade a sério equivale a não levar a sério o Evangelho e a obra de Deus, que continua a manifestar-se nas periferias geográficas e existenciais. O Senhor age sempre de maneira escondida nas periferias, também na nossa alma, nas periferias da alma, dos sentimentos, talvez sentimentos dos quais nos envergonhamos; mas o Senhor está ali para nos ajudar a ir em frente. O Senhor continua a manifestar-se nas periferias, quer geográficas quer existenciais. Em particular, Jesus vai em busca dos pecadores, entra nas suas casas, fala com eles, chama-os à conversão. E foi até repreendido por isto: “Mas, veja, este Mestre – diziam os doutores da lei – veja este Mestre: come junto com os pecadores, suja-se, vai à procura daqueles que não praticam o mal, mas o sofrem: os doentes, os famintos, os pobres, os últimos”. Jesus vai sempre rumo às periferias. E isto deve dar-nos muita confiança, pois o Senhor conhece as periferias do nosso coração, as periferias da nossa alma, as periferias da nossa sociedade, da nossa cidade, da nossa família, isto é, aquela parte um pouco obscura que não mostramos talvez por vergonha.


Sob este aspecto, a sociedade daquela época não é muito diferente da nossa. Hoje também há um centro e uma periferia. E a Igreja sabe que é chamada a anunciar a boa nova a partir das periferias. José, que é um carpinteiro de Nazaré e que confia no plano de Deus para a sua jovem noiva e para si mesmo, recorda à Igreja que fixe o olhar naquilo que o mundo ignora deliberadamente. Hoje José ensina-nos isto: “Não olhemos para as coisas que o mundo louva, olhemos para os ângulos, as sombras, as periferias, para aquilo que o mundo não quer”. Ele lembra a cada um de nós que demos importância ao que os outros descartam. Neste sentido, é verdadeiramente um mestre do essencial: lembra-nos que o que é realmente valioso não atrai a nossa atenção, mas requer um discernimento paciente para ser descoberto e valorizado. Descubramos o que é válido. Peçamos-lhe que interceda para que toda a Igreja possa recuperar este discernimento, esta capacidade de discernir, esta capacidade de avaliar o que é essencial. Comecemos de novo a partir de Belém, comecemos de novo a partir de Nazaré.


Hoje gostaria de transmitir uma mensagem a todos os homens e mulheres que vivem nas periferias geográficas mais esquecidas do mundo ou que experimentam situações de marginalidade existencial. Que encontreis em São José a testemunha e o protetor para quem olhar. A ele podemos recorrer com esta oração, prece “feita em casa”, mas nascida do coração:


São José,
vós que sempre confiastes em Deus,
e fizestes as vossas escolhas
guiado pela sua providência
ensinai-nos a não contar tanto com os nossos projetos
mas com o seu desígnio de amor.
Vós que viestes das periferias
ajudai-nos a converter o nosso olhar
e a preferir o que o mundo descarta e marginaliza.
Confortai quantos se sentem sozinhos
e apoiai quantos se comprometem em silêncio
para defender a vida e a dignidade humana. Amém.


Francisco. Audiência Geral de 17 de novembro de 2021.

São José, patrono universal da Santa Igreja



 QUEMADMODUM DEUS

Decreto de S.S. o Papa Pio IX

Proclamando São José como Patrono da Igreja

À Cidade e ao Mundo

Da mesma maneira que Deus havia constituído José, gerado do patriarca Jacó, superintendente de toda a terra do Egito para guardar o trigo para o povo, assim, chegando a plenitude dos tempos, estando para enviar à terra o seu Filho Unigênito Salvador do mundo, escolheu um outro José, do qual o primeiro era figura, o fez Senhor e Príncipe de sua casa e propriedade e o elegeu guarda dos seus tesouros mais preciosos.

De fato, ele teve como sua esposa a Imaculada Virgem Maria, da qual nasceu pelo Espírito Santo, Nosso Senhor Jesus Cristo, que perante os homens dignou-se ter sido considerado filho de José, e lhe foi submisso. E Aquele que tantos reis e profetas desejaram ver, José não só viu, mas com Ele conviveu e com paterno afeto abraçou e beijou; e além disso, nutriu cuidadosamente Aquele que o povo fiel comeria como pão descido dos céus para conseguir a vida eterna. Por esta sublime dignidade, que Deus conferiu a este fidelíssimo servo seu, a Igreja teve sempre em alta honra e glória o Beatíssimo José, depois da Virgem Mãe de Deus, sua esposa, implorando a sua intercessão em momentos difíceis.

E agora, nestes tempos tristíssimos em que a Igreja, atacada de todos os lados pelos inimigos, é de tal maneira oprimida pelos mais graves males, a tal ponto que homens ímpios pensam ter finalmente as portas do Inferno prevalecido sobre ela, é que os Veneráveis e Excelentíssimos Bispos de todo o mundo católico dirigiram ao Sumo Pontífice as suas súplicas e as dos fiéis por eles guiados, solicitando que se dignasse constituir São José como Patrono da Igreja Católica. Tendo depois no Sacro Concílio Ecumênico do Vaticano insistentemente renovado as suas solicitações e desejos, o Santíssimo Senhor Nosso Papa Pio IX, consternado pela recentíssima e funesta situação das coisas, para confiar a si mesmo e os fiéis ao potentíssimo patrocínio do Santo Patriarca José, quis satisfazer os desejos dos Excelentíssimos Bispos e solenemente declarou-o Patrono da Igreja Católica, ordenando que a sua festa, marcada em 19 de março, seja de agora em diante celebrada com rito duplo de primeira classe, porém sem oitava, por causa da Quaresma.

Além disso, ele mesmo dispôs que tal declaração, por meio do presente Decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, fosse tornada pública neste santo dia da Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus e Esposa do castíssimo José.

Rejeite-se qualquer coisa em contrário.

08 de dezembro de 1870.

Cardeal Patrizi,

Prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos, Bispo de Ostia e Velletri.


Sobre a necessidade de se recorrer ao Patrocínio de São José




QUAMQUAM PLURIES


Carta Encíclica de Sua Santidade o Papa Leão XIII
sobre a necessidade de se recorrer ao Patrocínio de São José,
junto ao da Virgem Mãe de Deus,
nas dificuldades dos tempos atuais


1. Ainda que por diversas vezes já tenhamos suplicado que se fizessem em todo o mundo orações especiais e se recomendassem vivamente a Deus os interesses da Igreja, todavia ninguém fique admirado se de novo sentimos a necessidade de inculcar o mesmo dever. Em tempos difíceis, especialmente quando o poder das trevas parece tentar de tudo em dano da cristandade, a Igreja costuma invocar humildemente a Deus, seu autor e protetor, com novo fervor e maior perseverança, bem como solicitar a mediação dos santos em cujo patrocínio tem mais confiança de encontrar socorro, em primeiro lugar a bem-aventurada Virgem Mãe de Deus, bem sabendo que os frutos desta piedosa oração e desta esperança cedo ou tarde aparecerão. Agora bem notais, Veneráveis Irmãos, que os tempos atuais não são menos difíceis do que aquele que a Igreja teve que enfrentar no passado. Vemos, de fato, vir diminuída em muitos a fé, que é o princípio de todas as virtudes cristãs, esfriar-se a caridade e as novas gerações degradar-se nas ideias e na conduta. Vemos a luta que de toda parte se faz à Igreja de Cristo com violenta perfídia; a guerra atroz contra o papado e as tentativas sempre mais declaradas de se derrubar os próprios fundamentos da religião. Até que ponto tenham chegado e quanto ainda estejam tramando os inimigos, é tão claro e evidente que se torna inútil gastar palavras.


2. Em uma situação tão difícil e angustiante, na qual os males superam em muito os remédios humanos, não nos resta outra coisa senão recorrer à potência divina. Por esta razão, julgamos oportuno estimular o povo cristão a pedir o socorro de Deus onipotente com renovado fervor e inabalável confiança. Aproxima-se o mês de outubro, por Nós já consagrado à Virgem do Rosário. De todo o coração vos pedimos que ele seja celebrado, este ano, com a maior devoção, piedade e participação possível. Sabemos poder encontrar na materna bondade da Virgem um pronto refúgio em todos os nossos males, e estamos certos de que não serão vãs as nossas esperanças junto a ela. Se no passado nos foi propícia em toda necessidade, por que não haveria de renovar os exemplos do seu poder e da sua graça também no presente, se soubermos invocá-la juntos, com oração humilde e perseverante? Nós, antes, estamos certos de que tanto mais nos assistirá, quanto mais longamente quer ser por nós invocada. Mas esta é uma outra iniciativa que Nós propomos e à qual , Veneráveis Irmãos, prestareis, como sempre, a vossa diligente colaboração. Para fazer com que Deus seja mais favorável às nossas orações, e para que – entre tantos intercessores que podem ser invocados – derrame mais pronta e copiosamente auxílio à sua Igreja, cremos muito útil que o povo cristão habitue-se a rogar com devoção e confiança, juntamente com a Virgem Mãe de Deus, também o seu castíssimo esposo São José. E temos bons motivos para crer que isto será particularmente agradável à Virgem Santa. Sobre este tema que pela primeira vez nos propomos a tratar publicamente, sabemos que a devoção popular é não só propensa por natureza, mas também já está bastante avançada. E, de fato, vimos um grande progresso no culto a São José, anteriormente promovido pelo zelo dos Sumos Pontífices, depois estendido a todo o mundo, especialmente quando Pio IX, Nosso Predecessor de feliz memória, a pedido de muitíssimos bispos, declarou o Santo Patriarca, Patrono da Igreja Universal. Todavia, por ser muito importante que o seu culto penetre profundamente nas instituições católicas e nos costumes, queremos que o povo cristão receba da Nossa própria voz e autoridade todo o incentivo possível.


3. As razões pelas quais São José deve ser tido como Patrono da Igreja – e a Igreja por sua vez espera muitíssimo da Sua especial proteção – residem sobretudo no fato que ele é esposo de Maria e pai putativo de Jesus Cristo. Daqui derivam toda a sua grandeza, graça, santidade e glória. Sabemos que a dignidade da Mãe de Deus é altíssima e que não pode haver uma maior. Mas dado que entre a beatíssima Mãe de Deus e São José existe um verdadeiro vínculo matrimonial, é também certo que São José, mais que qualquer outro, se aproximou daquela altíssima dignidade que faz da Mãe de Deus a criatura mais excelsa. De fato, o matrimônio constitui por si mesmo a forma mais nobre de sociedade e de amizade, e traz consigo a comunhão dos bens. Portanto, se Deus deu José como esposo a Maria, deu-o não só como companheiro de sua vida, testemunha de sua virgindade e tutor da sua pureza, mas também como participante – por força do vínculo conjugal – da excelsa dignidade da qual ela foi adornada. Além disso, ele eleva-se entre todos em dignidade também porque, por vontade de Deus, foi guarda e, na opinião de todos, pai do Filho de Deus. Em consequência, o Verbo de Deus foi humildemente submisso a José, obedeceu-lhe e prestou-lhe a honra e o respeito que o filho deve ao seu pai. Ora, desta dupla dignidade derivaram espontaneamente os deveres que a natureza impõe aos pais de família; assim, pois, São José foi guarda legítimo e natural da Santa Família, e ao mesmo tempo seu chefe e defensor, exercendo estes ofícios até o fim de sua vida. Foi ele, de fato, que guardou com sumo amor e contínua vigilância a sua esposa e o Filho divino; foi ele que proveu o seu sustento com o trabalho; ele que os afastou do perigo a que os expunha o ódio de um rei, levando-o a salvo para fora da pátria, e nos desconfortos das viagens e nas dificuldades do exílio foi de Jesus e Maria companheiro inseparável, socorro e conforto. Pois bem: a Sagrada Família, que José governou com autoridade de pai, era o berço da Igreja nascente. A Virgem Santíssima, de fato, enquanto Mãe de Jesus, é também mãe de todos os cristãos, por Ela gerados em meio às dores do Redentor no Calvário. E Jesus é, de alguma maneira, como o primogênito dos cristãos, que por adoção e pela redenção lhe são irmãos. Disto deriva que São José considera como confiada a Ele próprio a multidão dos cristãos que formam a Igreja, ou seja, a inumerável família dispersa pelo mundo, sobre a qual Ele, como esposo de Maria e pai putativo de Jesus, tem uma autoridade semelhante a de um pai. É, portanto, justo e digno de São José, que assim como ele guardou no seu tempo a família de Nazaré, também agora guarde e defenda com seu patrocínio a Igreja de Deus.


4. Tudo isto, Veneráveis Irmãos, encontra apoio – como bem o sabeis – no ensinamento de não poucos Padres da Igreja. De acordo nisto com a Sagrada Liturgia, eles entreviram no antigo José, filho do patriarca Jacó, a pessoa e a vocação do nosso [José]; e no esplendor que daquele emanava, viram simbolizada a grandeza e a glória do Guarda da Sagrada Família. De fato, além de terem ambos recebido – não sem significado – o mesmo nome, existe entre eles muitas outras e claras semelhanças, a Vós bem conhecidas. Em primeiro lugar, o antigo José ganhou para si a benevolência de seu senhor de um modo todo singular; e depois conseguiu, graças ao seu zelo, que chovesse do céu toda a prosperidade e bênçãos sobre o seu patrão, de quem dirigiu a casa. E mais: por vontade do rei governou com plenos poderes todo o reino, e quando a carestia se tornou calamidade pública, foi ele quem alimentou os egípcios e os povos vizinhos com exemplar sagacidade, a ponto de ser merecidamente chamado pelo faraó de “salvador do mundo”. Assim, no antigo patriarca é fácil de se ver a figura do nosso [José]. Como a antigo José foi a bênção para a casa de seu patrão e para todo o reino, assim o nosso José foi predestinado a guardar a cristandade e deve ser tido como defensor da Igreja, que efetivamente é a Casa do Senhor e o reino de Deus na terra. Todos os cristãos, por isso, de quaisquer condições e estado, têm bons motivos para se confiarem e se abandonarem à amorosa proteção de São José. Nele, os pais de família encontram o mais alto exemplo de paterna vigilância e providência; os cônjuges, o exemplo mais perfeito de amor, concórdia e fidelidade conjugal; os consagrados a Deus, o modelo e protetor da castidade virginal. Volvendo o olhar à imagem de José, aprendam os nobres a conservar a sua dignidade também na desventura; os ricos descubram quais são os bens que na verdade é necessário buscar e guardar zelosamente. E enfim, os pobres, os operários e todos aqueles que pouco tiveram da sorte, têm um motivo a mais – e todo especial – de recorrer a José e de tomá-lo como exemplo: Ele, embora sendo de descendência régia, desposado com a mais excelsa entre as mulheres, e ter sido considerado como o pai do Filho de Deus, passou todavia sua vida no trabalho, provendo o necessário para si e para os seus, com a fadiga e a habilidade de suas mãos. Entretanto, é bom refletir que não é verdade que a condição dos pobres seja degradante. O trabalho do operário, longe de ser desonroso, torna-se fonte de nobreza quando associado à virtude. José, contente do seu trabalho e do pouco que possuía, viveu com coragem e nobreza as angústias da vida, seguindo nisto o exemplo de Jesus, que embora sendo Senhor de tudo, fez-se servo de todos e não desdenhou abraçar voluntariamente a pobreza.


5. Estas considerações devem elevar o ânimo de quem é pobre e ganha o pão com seu trabalho, e fazê-lo raciocinar retamente. De fato, se é verdade que a justiça consente em poder libertar-se da pobreza e alcançar uma posição melhor, também é verdade que a ninguém é permitido, nem à razão, nem à justiça, subverter a ordem estabelecida por Deus. Antes, recorrer nestes casos à violência e tentar o caminho da sublevação e dos tumultos é uma escolha desesperada, que na maioria das vezes agrava os próprios males que se queria aliviar. Querendo, portanto, agir com prudência, os proletários não confiem tanto nas promessas dos violentos, mas antes no exemplo e no patrocínio de São José, e na caridade materna da Igreja, que a cada dia mais se preocupa pela sua situação.


6. Portanto, Veneráveis Irmãos, enquanto Nós esperamos muito da vossa autoridade e do vosso zelo de Pastores, e estamos certos de que as pessoas boas e piedosas farão ainda mais do que estamos solicitando, decretamos que por todo o mês de outubro se acrescente à recitação do Rosário – por Nós já prescrita em outra ocasião – a oração a São José que recebeis junto com esta Carta Encíclica, e que isto se repita todos os anos, perpetuamente. Àqueles que devotamente recitarem esta oração, concedemos cada vez a indulgência de sete anos e outras tantas quarentenas. É também útil e louvável que se consagre, como já se fez em muitos lugares, o mês de março ao Santo Patriarca, com exercícios diários de piedade em sua honra. Onde isto não for possível, faça-se ao menos antes da sua festa, no lugar principal, um tríduo preparatório de orações. Recomendamos, além disso, aos fiéis daquelas nações nas quais o dia 19 de março, consagrado a São José, não esteja incluído entre as festas de preceito, que não deixem por quanto possível, de santificá-lo ao menos em particular, em honra do celeste Patrono, como um dia festivo.


7. Entretanto, Veneráveis Irmãos, como penhor de graças do céu e na Nossa benevolência, de todo o coração dispensamos no Senhor a Bênção Apostólica a Vós, ao Clero e aos vossos fiéis.


Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 15 de agosto de 1889, décimo segundo ano do Nosso Pontificado.


LEO PP. XIII


Oração a São José


    A vós, São José, recorremos em nossa tribulação e, tendo implorado o auxílio de vossa santíssima esposa, cheios de confiança solicitamos também o vosso patrocínio.


    Por esse laço sagrado de caridade que vos uniu à Virgem Imaculada Mãe de Deus, e pelo amor paternal que tivestes ao Menino Jesus, ardentemente vos suplicamos que lanceis um olhar benigno sobre a herança que Jesus Cristo conquistou com o seu sangue, e nos socorrais em nossas necessidades com o vosso auxílio e poder.


    Protegei, ó guarda providente da Divina Família, o povo eleito de Jesus Cristo.


    Afastai para longe de nós, ó pai amantíssimo, a peste do erro e do vício.


    Assisti-nos do alto do céu, ó nosso fortíssimo sustentáculo, na luta contra o poder das trevas, e assim como outrora salvastes da morte a vida ameaçada do Menino Jesus, assim também defendei agora a Santa Igreja de Deus das ciladas do Inimigo e de toda adversidade.


    Amparai a cada um de nós com o vosso constante patrocínio, a fim de que, a vosso exemplo e sustentados com o vosso auxílio, possamos viver virtuosamente, morrer piedosamente e obter no céu a eterna bem-aventurança.


    Amém.