Semana Santa com São João Paulo II: Terça-feira Santa

 


O sofrimento vencido pelo amor


O homem « perece », quando perde a « vida eterna ». O contrário da salvação não é, pois, somente o sofrimento temporal, qualquer sofrimento, mas o sofrimento definitivo: a perda da vida eterna, o ser repelido por Deus, a condenação. O Filho unigénito foi dado à humanidade para proteger o homem, antes de mais nada, deste mal definitivo e do sofrimento definitivo. Na sua missão salvífica, portanto, o Filho deve atingir o mal nas suas próprias raízes transcendentais, a partir das quais se desenvolve na história do homem. Estas raízes transcendentais do mal estão pegadas ao pecado e à morte: elas estão, de fato, na base da perda da vida eterna. A missão do Filho unigénito consiste em vencer o pecado e a morte. E Ele vence o pecado com a sua obediência até à morte, e vence a morte com a sua ressurreição.


Quando se diz que Cristo com a sua missão atinge o mal nas próprias raízes, nós pensamos não só no mal e no sofrimento definitivo, escatológico (para que o homem « não pereça, mas tenha a vida eterna »), mas também — pelo menos indiretamente — no mal e no sofrimento na sua dimensão temporal e histórica. O mal, de facto, permanece ligado ao pecado e à morte. E ainda que se deva ter muita cautela em considerar o sofrimento do homem como consequência de pecados concretos (como mostra precisamente o exemplo do justo Job), ele não pode contudo ser separado do pecado das origens, daquilo que em São João é chamado « o pecado do mundo », nem do pano de fundo pecaminoso das ações pessoais e dos processos sociais na história do homem. Se não é permitido aplicar aqui o critério restrito da dependência direta (como faziam os três amigos de Job), não se pode também, por outro lado, pôr absolutamente de parte o critério segundo o qual, na base dos sofrimentos humanos, há uma multíplice implicação com o pecado.


Sucede o mesmo quando se trata da morte. Esta, muitas vezes, até é esperada, como uma libertação dos sofrimentos desta vida; ao mesmo tempo, não é possível deixar passar despercebido que ela constitui como que uma síntese definitiva da obra destrutora do sofrimento, tanto no organismo corporal como na vida psíquica. Mas a morte comporta, antes de mais, a desagregação da personalidade total psicofísica do homem. A alma sobrevive e subsiste separada do corpo, ao passo que o corpo é sujeito a uma decomposição progressiva, segundo as palavras do Senhor Deus, pronunciadas depois do pecado cometido pelo homem nos princípios da sua história terrena: « És pó e em pó te hás-de tornar ». Portanto, mesmo que a morte não seja um sofrimento no sentido temporal da palavra, mesmo que de certo modo ela se encontre para além de todos os sofrimentos, contudo o mal que o ser humano nela experimenta tem um carácter definitivo e totalizante. Com a sua obra salvífica, o Filho unigénito liberta o homem do pecado e da morte. Antes de mais, cancela da história do homem o domínio do pecado, que se enraizou sob o influxo do Espírito maligno a partir do pecado original; e dá desde então ao homem a possibilidade de viver na Graça santificante. Na esteira da vitória sobre o pecado, tira o domínio também à morte, abrindo, com a sua ressurreição, o caminho para a futura ressurreição dos corpos. Uma e outra são condição essencial da « vida eterna », isto é, da felicidade definitiva do homem em união com Deus; isto, para os salvados, quer dizer que na perspectiva escatológica o sofrimento é totalmente cancelado.


Como consequência da obra salvífica de Cristo, o homem passou a ter, durante a sua existência na terra, a esperança da vida e da santidade eternas. E ainda que a vitória sobre o pecado e sobre a morte, alcançada por Cristo com a sua Cruz e a sua Ressurreição, não suprima os sofrimentos temporais da vida humana, nem isente do sofrimento toda a dimensão histórica da existência humana, ela projecta, no entanto, sobre essa dimensão e sobre todos os sofrimentos uma luz nova. É a luz do Evangelho, ou seja, da Boa Nova. No centro desta luz encontra-se a verdade enunciada no colóquio com Nicodemos: « Com efeito, Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigénito ». Esta verdade opera uma mudança, desde os fundamentos, no quadro da história do homem e da sua situação terrena. Apesar do pecado que se enraizou nesta história, como herança original, como « pecado do mundo » e como suma dos pecados pessoais, Deus Pai amou o Filho unigénito, isto é, ama-o de modo perdurável; depois, no tempo, precisamente por motivo deste amor que supera tudo, Ele « dá » este Filho, a fim de que atinja as próprias raízes do mal humano e assim se aproxime, de maneira salvífica, do inteiro mundo do sofrimento, no qual o homem é participante.


Na sua atividade messiânica no meio de Israel, Cristo tornou-se incessantemente próximo do mundo do sofrimento humano. « Passou fazendo o bem »; e adoptava este seu modo de proceder em primeiro lugar para com os que sofriam e os que esperavam ajuda. Curava os doentes, consolava os aflitos, dava de comer aos famintos, libertava os homens da surdez, da cegueira, da lepra, do demónio e de diversas deficiências físicas; por três vezes, restituiu mesmo a vida aos mortos. Era sensível a toda a espécie de sofrimento humano, tanto do corpo como da alma. Ao mesmo tempo ensinava; e no centro do seu ensino propôs as oito bem-aventuranças, que são dirigidas aos homens provados por diversos sofrimentos na vida temporal. Estes são os « pobres em espírito », « os aflitos », « os que têm fome e sede de justiça », « os perseguidos por causa da justiça », quando os injuriam, os perseguem e, mentindo, dizem toda a espécie de mal contra eles por causa de Cristo...  É assim segundo São Mateus; e São Lucas menciona ainda explicitamente aqueles « que agora têm fome ».


De qualquer modo, Cristo aproximou-se do mundo do sofrimento humano, sobretudo pelo facto de ter ele próprio assumido sobre si este sofrimento. Durante a sua atividade pública, ele experimentou não só o cansaço, a falta de uma casa, a incompreensão mesmo da parte dos que viviam mais perto dele, mas também e acima de tudo foi cada vez mais acantoado por um círculo hermético de hostilidade, ao mesmo tempo que se iam tornando cada dia mais manifestos os preparativos para o eliminar do mundo dos vivos. E Cristo estava cônscio de tudo isto e muitas vezes falou aos seus discípulos dos sofrimentos e da morte que o esperavam: « Eis que subimos a Jerusalém; e o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, e eles condená-lo-ão à morte e entregá-lo-ão nas mãos dos gentios, que o hão-de escarnecer, cuspir sobre ele, flagelar e matar. Mas três dias depois ressuscitará ». Cristo vai ao encontro da sua paixão e morte com plena consciência da missão que deve realizar exatamente desse modo. É por meio deste seu sofrimento que ele tem de fazer com que « o homem não pereça, mas tenha a vida eterna ». É precisamente por meio da sua Cruz que ele deve atingir as raízes do mal, que se embrenham na história do homem e nas almas humanas. É precisamente por meio da sua Cruz que ele deve realizar a obra da salvação. Esta obra, no desígnio do Amor eterno, tem um carácter redentor.


São João Paulo II. Salvifici Doloris, 15-16.