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Semana Santa com são João Paulo II: Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

 


As seguintes palavras foram preparadas pelo papa João Paulo II para a benção Urbi et Orbe da Páscoa de 2005, ocasião onde manifestou aos fieis e ao mundo o seu testemunho de dor e sofrimento, e, por não conseguir falar, foi lida pelo cardeal Ângelo Sodano. Cinco dias depois, ele se despediria de nós e voltaria ao Pai. 


1. Mane nobiscum Domine!

Fica conosco, Senhor! (cf. Lc 24,29).

Com estas palavras os discípulos de Emaús

convidaram o misterioso Viajante

a permanecer com eles, no entardecer

daquele primeiro dia depois do sábado

em que o inacreditável tinha acontecido.

Conforme a promessa, Cristo ressuscitara;

mas eles ainda não o sabiam.

Porém as palavras do Viajante ao longo do caminho

tinham aos poucos aquecido seus corações.

Por isso Lhe fizeram o convite: “Fica conosco”.

Depois, sentados em volta da mesa da ceia,

reconheceram-no ao “partir o pão”.

E logo a seguir Ele desapareceu.

Diante deles ficou o pão partido,

e no seus corações a doçura daquelas suas palavras.


2. Caríssimos Irmãos e Irmãs,

a Palavra e o Pão da Eucaristia,

mistério e dom da Páscoa,

permanecem ao longo dos séculos como memória perene

da paixão, morte e ressurreição de Cristo!

Também hoje, Páscoa da Ressurreição,

nós, com todos os cristãos do mundo repetimos:

Jesus, crucificado e ressuscitado, fica conosco!

Fica conosco, amigo fiel e seguro apoio

da humanidade a caminho pelas estradas da vida!

Tu, Palavra viva do Pai,

infunde certeza e esperança naqueles que buscam

o verdadeiro sentido da sua existência.

Tu, Pão de vida eterna, nutre o homem

faminto de verdade, liberdade, justiça e paz.


3. Fica conosco, Palavra viva do Pai,

e ensina-nos palavras e gestos de paz:

paz para a terra consagrada pelo teu sangue

e empapada com o sangue de tantas vítimas inocentes;

paz para os Países do Médio Oriente e da África,

onde continua a ser derramado muito sangue;

paz para toda a humanidade, sobre a qual sempre grava

o perigo de guerras fratricidas.

Fica conosco, Pão de vida eterna,

partido e distribuído entre os comensais:

dá-nos também a força de uma solidariedade generosa

para com as multidões que, ainda hoje,

sofrem e morrem de miséria e fome,

dizimadas por epidemias letais

ou prostradas por desastrosas catástrofes naturais.

Em virtude da tua Ressurreição

possam elas também participar de uma vida nova.


4. Também nós, homens e mulheres do terceiro milénio,

necessitamos de Ti, Senhor ressuscitado!

Fica conosco agora e até ao fim dos tempos.

Faz que o progresso material dos povos

jamais ofusque os valores espirituais

que são a alma da sua civilização.

Ampara-nos, Te suplicamos, no nosso caminho.

Nós cremos em Ti, em Ti esperamos,

pois só Tu tens palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68)

Mane nobiscum, Domine! Aleluia!



São João Paulo II. Mensagem Urbi et Orbe. Do Vaticano, 27 de Março de 2005, Páscoa da Ressurreição.

Semana Santa com são João Paulo II: Sábado Santo

 


Maternidade de Maria obtida aos pés da Cruz


1. "Jesus disse à Sua Mãe: 'Mulher, eis aí o teu filho'. Depois disse ao discípulo: 'Eis ai a tua mãe'." (Jo. 19, 26 s.).


Neste Ano Santo dirigimo-nos com mais ardor a Maria, porque um especialíssimo sinal da reconciliação da humanidade com Deus foi a missão, a Ela confiada no Calvário, de ser a Mãe de todos os remidos.


As circunstâncias em que esta maternidade de Maria foi proclamada, mostram a importância que o Redentor lhe atribuía. No momento mesmo em que se consumava o seu sacrifício, Jesus disse à Mãe aquelas palavras fundamentais: "Mulher, eis aí o teu filho", e ao discípulo: "Eis aí a tua Mãe" (Jo. 19. 26-27). E o Evangelista anota que, depois de as pronunciar, Jesus teve consciência de que tudo estava completado. O dom da Mãe era o dom final que Ele concedia à humanidade como fruto do seu sacrifício.

Semana Santa com São João Paulo II: Sexta-feira Santa

 


A profundidade do sofrimento de Cristo


As Escrituras tinham que ser cumpridas. Eram muitos os textos messiânicos do Antigo Testamento que anunciavam os sofrimentos do futuro Ungido de Deus. De entre todos eles, é particularmente comovedor aquele que habitualmente se designa como Canto quarto do Servo de Javé, contido no Livro de Isaías. O profeta, que justamente é chamado «o quinto evangelista », dá-nos neste Canto a imagem dos sofrimentos do Servo, com um realismo tão vivo como se o contemplasse com os próprios olhos: com os olhos do corpo e com os do espírito. A paixão de Cristo torna-se, à luz dos versículos de Isaías, quase mais expressiva e comovente do que nas descrições dos próprios evangelistas. Eis como se nos apresenta o verdadeiro Homem das dores:

Semana Santa com São João Paulo II: Quinta-feira Santa

 


1. "Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa, antes de padecer" (Lc 22, 15).


Com estas palavras, Cristo faz conhecer o significado profético da Ceia pascal, que está para celebrar com os discípulos no Cenáculo de Jerusalém.


Com a primeira leitura, tirada do Livro do Êxodo, a Liturgia pôs em evidência o fato de a Páscoa de Jesus se inscrever no contexto daquela da Antiga Aliança. Com ela os Israelitas faziam memória da ceia consumada pelos seus pais, no momento do êxodo do Egito, e da libertação da escravidão. O texto sagrado prescrevia que um pouco do sangue do cordeiro fosse posto nas duas ombreiras e na verga da porta das casas. E acrescentava como devia ser comido o cordeiro, isto é: "Tereis os rins cingidos, as sandálias nos pés e o bordão na mão... apressadamente... Passarei nesta noite através do Egito e ferirei de morte todos os primogénitos... O sangue servirá de sinal nas casas em que residis. Vendo o sangue, passarei adiante, e não sereis atingidos pelo flagelo destruidor" (Êx 12, 11-13).

Semana Santa com São João Paulo II: Quarta-feira Santa



Os eventos centrais da nossa redenção 

Queridos irmãos e irmãs no Senhor!


Hoje, Quarta-feira Santa, convida-nos a meditar juntos sobre as realidades que vamos reviver durante esta semana, chamada "santa" porque nela comemoramos os eventos centrais da nossa redenção. Na vida da humanidade, nada mais significativo e valioso ocorreu. A morte e a ressurreição de Cristo são os eventos mais importantes da história.


Começa amanhã o tríduo da paixão e ressurreição do Senhor, que - como está escrito no Missal Romano - "uma vez que Jesus Cristo realizou a obra da redenção dos homens e a glorificação perfeita de Deus principalmente por seu mistério pascal, pelo qual morrendo destruiu nossa morte e ressuscitando restaurou a vida, o tríduo santo pascal da paixão e ressurreição do Senhor é o ponto culminante de todo o ano litúrgico. A preeminência que o domingo tem na semana é a mesma que a solenidade da Páscoa tem no ano litúrgico" (Normas gerais, n. 18).


Portanto, desejo exortá-los a viver intensamente os próximos dias, para que deixem uma marca profunda em suas mentes que oriente suas vidas. Entrem com empenho na atmosfera mística do tríduo pascal: na manhã da "Quinta-feira Santa", em todas as catedrais do mundo, o bispo celebra junto com os padres da diocese a "Missa Crismal", para comemorar a instituição do sacerdócio e para consagrar os óleos sagrados necessários para a ordenação, a confirmação e a unção dos enfermos. Depois, à tarde, na Missa "in Cena Domini", vocês podem reviver com profunda fé a instituição da Eucaristia, prestando em seguida seu tributo de amor e adoração ao Santíssimo Sacramento e respondendo assim ao convite de Jesus na dramática noite de sua agonia no Jardim: "Fiquem aqui e vigiem comigo" (Mt 26, 38). Em seguida, a Sexta-feira Santa é um dia de grande comoção, porque a Igreja nos convida a ouvir novamente a narrativa da Paixão segundo João, a adorar a Cruz, a orar por toda a Igreja, a participar com a Virgem Dolorosa no Sacrifício do Gólgota. Finalmente, as maravilhosas cerimônias do Sábado Santo enchem o coração de alegria suave com a bênção do fogo, a procissão do círio pascal na penumbra da igreja e o acendimento das velas ao som do "Lumen Christi", o solene pregão, o canto das ladainhas, a bênção da água batismal e, finalmente, a "Missa do Aleluia" com o canto festivo do "Glória" e a comunhão eucarística com Cristo ressuscitado. Todo o tríduo, permeado por profunda tristeza e alegria mística, desemboca então na solenidade central do Domingo de Páscoa, onde os eventos fundamentais da "história da salvação", ou seja, a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio, a Paixão e a Morte na cruz e a gloriosa ressurreição, transbordam em nossos corações com o hino da exultação e gratidão.


Considerem como um dever participar dos ritos da Semana Santa, deixando de lado outros interesses e compromissos, convencidos de que a liturgia realmente purifica os sentimentos, eleva as aspirações, faz sentir a beleza da fé cristã e o desejo do céu.


O cristão é aquele que compreendeu que é Cristo quem salva a humanidade e, portanto, não pode viver sem a Páscoa. Desde os primeiros tempos da Igreja, a Páscoa foi celebrada de forma eminente, a festa por "excelência": no terceiro século começou a ter sua fisionomia típica, com a celebração comunitária dos batismos na noite de Páscoa: era a teologia batismal de São Paulo que estava emergindo, entendida como a incorporação à morte e sepultamento de Cristo, para depois ressurgir com Ele para a nova vida da "graça". Celebrar a Páscoa significa encontrar-se com Cristo para ressurgir com Ele para a nova vida, buscando as coisas do alto... pensando nas coisas do alto (cf. Col 3, 1).


Recordando agora especialmente o dia de amanhã, Quinta-feira Santa, desejo terminar convidando-os de coração a amar cada vez mais seus sacerdotes. A vocação sacerdotal é certamente paz e alegria, mas também cruz e martírio. Com efeito, o sacerdote é totalmente consagrado a Cristo e age com os mesmos poderes e a mesma missão Dele: aqui está sua grandeza e dignidade, mas também sua paixão e agonia. Portanto, estejam unidos aos seus sacerdotes, amem-nos, estimem-nos, apoiem-nos e, sobretudo, rezem por eles.

Como sabem, enviei-lhes uma "Carta", que evoca o Santo Cura d'Ars, neste segundo centenário de seu nascimento. Pois bem, precisamente João Batista Vianney dizia: "Como é grande um sacerdote! O sacerdote só será verdadeiramente compreendido no céu. Se o compreendêssemos na terra, morreríamos não de espanto, mas de amor. Todos os outros benefícios de Deus não nos serviriam de nada sem o sacerdote. Para que serve uma casa cheia de ouro se não houver alguém que possa abrir a porta para nós? O sacerdote possui a chave dos tesouros celestiais e nos abre a porta; ele é o mordomo do bom Deus; o administrador de seus bens... Depois de Deus, o sacerdote é tudo!" (Alfred Monnin, Spirito del Curato d'Ars, Ares, Roma, 1956, pág. 82).


Que a Virgem Santíssima, que seguiu Jesus em sua paixão e esteve presente ao pé da cruz em sua morte, os acompanhe no caminho do tríduo em direção à alegria jubilosa da Páscoa, para a qual envio minhas calorosas felicitações.


Com minha bênção apostólica!

Semana Santa com São João Paulo II: Terça-feira Santa

 


O sofrimento vencido pelo amor


O homem « perece », quando perde a « vida eterna ». O contrário da salvação não é, pois, somente o sofrimento temporal, qualquer sofrimento, mas o sofrimento definitivo: a perda da vida eterna, o ser repelido por Deus, a condenação. O Filho unigénito foi dado à humanidade para proteger o homem, antes de mais nada, deste mal definitivo e do sofrimento definitivo. Na sua missão salvífica, portanto, o Filho deve atingir o mal nas suas próprias raízes transcendentais, a partir das quais se desenvolve na história do homem. Estas raízes transcendentais do mal estão pegadas ao pecado e à morte: elas estão, de fato, na base da perda da vida eterna. A missão do Filho unigénito consiste em vencer o pecado e a morte. E Ele vence o pecado com a sua obediência até à morte, e vence a morte com a sua ressurreição.

Semana Santa com são João Paulo II: Segunda-feira Santa

 


 A nossa solidariedade com Cristo que sofre


1. Durante a Quaresma, a Igreja, referindo-se às palavras de Cristo, ao que ensinaram os profetas do Antigo Testamento, e à própria tradição de séculos, exorta-nos a uma especial solidariedade com todos quantos sofrem e experimentam dalgum modo a pobreza, a miséria, a injustiça e a perseguição. Disso falámos na quarta-feira passada, continuando as nossas reflexões quaresmais sobre o actual significado da penitência que se exprime por meio da oração, do jejum e da esmola. A exortação à solidariedade, em nome de Cristo, com todas as tribulações e as necessidades dos nossos irmãos, e não apenas com aqueles que entram no raio do nosso olhar e da nossa mão, mas com todos, mesmo com os gritos das almas e dos corpos atormentados, é quase a essência mesma de viver espiritualmente o período da Quaresma na existência da Igreja. Na última semana da Quaresma — depois de tais preparações (e só depois delas) — a Igreja exorta-nos a uma particular e excepcional solidariedade com o próprio Cristo que sofre. Embora nos acompanhe, durante todas as semanas deste período, o pensamento da paixão de Cristo, só todavia esta semana, a única no sentido pleno da palavra, é a semana da Paixão do Senhor. É a Semana Santa. A chamada a uma particular e excepcional solidariedade com Cristo que sofre faz-se sentir no fim do período quaresmal. Faz-se sentir quando está já desenvolvida em nós a atitude de conversão espiritual, e particularmente o sentido de solidariedade com todos os nossos irmãos que sofrem. Corresponde isto à lógica da revelação: o amor de Deus é o primeiro e maior mandamento, mas não pode cumprir-se fora do amor do homem. Não se cumpre sem este.


2. Ao mesmo tempo os mais profundos e mais fortes impulsos do amor devem brotar desta Semana, na qual somos chamados a uma particular e excepcional solidariedade com Cristo, na sua paixão e morte na Cruz. Deus de facto amou tanto o mundo — o homem no mundo—que lhe deu o seu Filho único (Jo. 3, 6). Deu-o à paixão e à morte. Contemplando esta revelação de amor que parte de Deus e se estende até ao homem no mundo, não podemos deter-nos mas devemos retomar o caminho «do regresso»: o caminho do coração humano que vai até Deus, o caminho do amor. A Quaresma — e sobretudo a Semana Santa - deve ser, cada ano da nossa vida na Igreja, um novo início deste «caminho do amor». A Quaresma identifica-se, como vemos, com o ponto culminante da revelação do amor de Deus para com o homem.


Portanto a Igreja exorta-nos a determo-nos, de modo particularíssimo e excepcional, ao lado de Cristo, só junto d'Ele. Exorta-nos — como São Paulo — (pelo menos nesta semana) a não sabermos coisa alguma ... a não ser Jesus Cristo e Este crucificado (1 Cor. 2, 2). Esta exortação dirige-a a Igreja a todos: não só à inteira comunidade dos crentes, a todos os seguidores de Cristo, mas também a todos os outros. Parar diante de Cristo que sofre, encontrar a pessoa em si mesma a solidariedade com Ele — eis o dever e a necessidade de todo o coração humano, eis a verificação da sensibilidade humana. Nisto se manifesta a nobreza do homem. A Semana Santa é pois o tempo da mais larga abertura da Igreja para a humanidade e juntamente o tempo-vértice da evangelização: através de tudo o que durante estes dias a Igreja pensa e diz de Cristo, através do modo com que vive a Sua paixão e morte, através da sua solidariedade com Ele, a Igreja volta, ano após ano, às raízes mesmas da sua missão e do seu anúncio salvador. E se nesta Semana Santa a Igreja, mais que falar, se cala, fá-lo para que possa tanto mais falar o próprio Cristo. Aquele Cristo a quem o Papa Paulo VI chamou o primeiro e perene Evangelizador (Cfr. Evangelii Nuntiandi, 7).


3. A evangelização pratica-se com a ajuda das palavras. Precisamente as palavras de Cristo pronunciadas durante a Sua paixão têm força enorme de expressão. Pode-se também dizer que elas são lugar de especial encontro com cada homem; são a ocasião e o motivo para manifestar grande solidariedade. Quantas vezes voltamos àquele que os Evangelistas registaram como fio condutor da oração de Cristo no jardim das Oliveiras: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálix (Mt. 26, 39)? Não sente deste modo cada homem no sofrimento, na tribulação, diante da cruz: «Passe de mim»? Quão profunda verdade humana está encerrada nesta frase! Cristo como verdadeiro homem, sentiu repugnância diante do sofrimento: Começou a entristecer-se e a angustiar-se (Mt. 26, 37) e disse: «Passe de mim ...», não venha, não se encontre comigo! É necessário aceitar toda a expressão humana, toda a verdade humana destas palavras, para as saber unir com as de Cristo: Se é possível, passe de mim este cálix, todavia não seja como eu quero mas como tu queres (Mt. 26, 39). Todo o homem, encontrando-se diante do sofrimento, encontra-se diante dum desafio ... É este apenas um desafio da sorte? Cristo dá a resposta dizendo: «Como tu queres». Não se dirige a uma sorte, a uma «sorte cega». Fala a Deus. Ao Pai. As vezes esta resposta não nos basta, porque não é a última palavra, mas a primeira. Não podemos compreender nem o Getsémani nem o Calvário, senão no contexto do acontecimento pascal completo. De todo o mistério.


4. Nas palavras da paixão de Cristo há um encontro particularmente intenso do humano com o divino. Já o demonstram as palavras do Getsémani. Depois, Cristo calar-se-á sobretudo. Dirá uma frase a Judas. Depois àqueles que Judas conduziu ao jardim do Getsémani para o prenderem. Depois ainda a Pedro. Diante do Sinédrio não se defende, mas dá testemunho. Assim também diante de Pilatos. E diante de Herodes não respondeu nada (Lc. 23, 9). Durante o suplício realizam-se as palavras de Isaías: Era como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha emudecida nas mãos do tosquiador, não abriu a sua boca (Is. 53, 7). As suas últimas palavras caem do alto da Cruz. Explicam-se no seu conjunto com o decurso do acontecimento, com o horrível suplício e ao mesmo tempo, por meio delas, apesar da sua brevidade e concisão, transparece o que é «divino» e «salvífico». Compreendemos o sentido «salvífico» das palavras dirigidas a sua Mãe, a João, ao bom ladrão, como também das palavras que se referiam aos que o crucificaram. Perturbadoras são as últimas palavras dirigidas ao Pai: último eco e juntamente quase continuação da oração do Getsémani. Cristo diz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste (Mt. 27, 46), repetindo as palavras do Salmista (Cfr. Sl. 21 (22), 1). No Getsémani dissera: Se é possível, passe de mim este cálice (Mt. 26, 39). E agora, do alto da cruz, confirmou publicamente que o «cálix» não foi afastado, que tem de o beber até ao fundo. Tal é a vontade do Pai. De facto, o eco da oração do Getsémani é esta palavra: Tudo está consumado (Jo. 19. 30). E, por fim, esta só: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito (Lc. 23, 46).


A agonia de Cristo. Primeiro, a moral no Getsémani. Depois, a moral e física ao mesmo tempo, na Cruz. Ninguém, como Cristo, manifestou tão profundamente o tormento humano de morrer, exatamente porque era Filho de Deus; porque o «humano» e o «divino» constituíam n'Ele uma unidade misteriosa. Por isso, também aquelas palavras da paixão de Cristo, tão penetrantemente humanas, constituirão sempre uma revelação da «divindade» que em Cristo se ligou à humanidade, na plenitude da unidade pessoal. Pode-se dizer: era necessária a morte de Deus-Homem, para que nós, herdeiros do pecado original, víssemos o que é o drama da morte do homem.


Devemos, nesta Semana Santa, chegar a uma solidariedade particular com Cristo que sofre, que é crucificado e agoniza, para reencontrar na nossa vida a proximidade do que é «divino» e do que é «humano». Deus decidiu falar-nos com a linguagem do amor que é mais forte que a morte. Recebamos tal mensagem.


São João Paulo II, Audiência Pública de 11 de abril de 1979.

Semana Santa com São João Paulo II: Domingo de Ramos

 


 1. "Auctor fidei nostrae..." — "Autor da nossa fé" (Cfr. Heb 12, 2. 2): com estas palavras, provenientes da Carta aos Hebreus, dirigimo-nos, no início da Semana Santa, a Cristo. A Semana Santa — Semana da Paixão do Senhor — conduz-nos às nascentes mesmas da nossa fé. O próprio Cristo é esta nascente. Ele é Quem obteve de modo absoluto a nossa salvação, precisamente mediante a Cruz. Precisamente pelo facto de ter aceitado a herança do Getsémani e do Calvário. Precisamente pelo facto de ter sido preso, processado, flagelado e coroado de espinhos. Precisamente pelo facto de ter sido condenado e de ter caído sob o peso da Cruz. E que se há-de dizer do terrível tormento da agonia na Cruz? Sigamos os indícios dos seus sofrimentos, com a máxima atenção detendo-nos em cada palavra, por Ele pronunciada: no cenáculo, no jardim de Getsémani, perante o Sinédrio, perante Pilatos e por fim na Cruz. Existe em tudo isto uma assombrosa coesão: a unidade do testemunho, da missão.


"Auctor fidei nostrae".

Preparação para a Semana Santa com São João Paulo II: A esmola

 


 A esmola: sinal universal de justiça e solidariedade


Irmãs e Irmãos caríssimos


1. Desejo voltar mais uma vez aos assuntos das nossas três meditações quaresmais: oração, jejum e esmola; sobretudo a esta última. Se a oração, o jejum e a esmola formam a nossa conversão a Deus, conversão que é expressa de modo mais exato com o termo grego «metánoia», se elas constituem o principal tema da liturgia quaresmal, um estudo penetrante desta liturgia persuade-nos que a «esmola» ocupa nesta um lugar especial. Procurámos explicá-lo brevemente na quarta-feira passada, apoiando-nos no ensinamento de Cristo e dos Profetas do Antigo Testamento, que ressoa muitas vezes na liturgia quaresmal.

Preparação para a Semana Santa com são João Paulo II: O jejum

 



 O jejum penitencial e o desenvolvimento da pessoa


1. Ordenai um jejum (Jl. 1, 14). São as palavras que ouvimos na primeira leitura de Quarta-feira de Cinzas. Escreveu-as o Profeta Joel, e a Igreja, em conformidade com elas, estabelece a prática da Quaresma, ordenando o jejum. Hoje a prática da Quaresma, definida por Paulo VI na Constituição «Poenitemini», está notavelmente mitigada em comparação com o que era antigamente. Nesta matéria o Papa deixou muito à decisão das Conferências Episcopais de cada país, às quais, por conseguinte, toca a missão de adaptar as exigências do jejum às circunstâncias em que se encontram as respectivas sociedades. Recordou também que a essência da penitência quaresmal é constituída não só pelo jejum, mas também pela oração e pela esmola (obra de misericórdia). É necessário pois decidir segundo as circunstâncias, uma vez que o jejum pode mesmo ser «substituído» por obras de misericórdia e pela oração. A finalidade deste período especial na vida da Igreja é, sempre e em toda a parte, a penitência, isto é, a conversão para Deus. A penitência, de fato, entendida como conversão, isto é «metánoia», forma um conjunto que a tradição do Povo de Deus já na Antiga Aliança, e em seguida o próprio Cristo, ligaram em certo modo à oração, à esmola e ao jejum.


Porquê o jejum?

Preparação para a Semana Santa com são João Paulo II: a Oração

 


 JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 14 de Março de 1979



A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça


1. Durante a Quaresma muitas vezes chegam aos nossos ouvidos as palavras «oração, jejum e esmola», que já tive de recordar na Quarta-feira de Cinzas. Estamos habituados a pensar nelas como em obras piedosas e boas, que todo o cristão deve realizar sobretudo neste período. Tal modo de pensar é exato, mas não completo. A oração, a esmola e o jejum precisam de mais profunda compreensão, se queremos inserir estes atos mais profundamente na nossa vida, e não considerá-los simplesmente como práticas passageiras, que só exigem de nós algo de momentâneo, ou só momentaneamente nos privam dalguma coisa. Com este modo de pensar não chegamos ainda ao verdadeiro sentido e à verdadeira força que a oração, o jejum e a esmola têm no processo da conversão a Deus e da nossa maturação espiritual: uma anda ao mesmo passo que a outra. Chegamos à maturidade espiritual convertendo-nos a Deus, e a conversão realiza-se por meio do jejum e da esmola, devidamente entendidos.