Semana Santa com São João Paulo II: Sexta-feira Santa

 


A profundidade do sofrimento de Cristo


As Escrituras tinham que ser cumpridas. Eram muitos os textos messiânicos do Antigo Testamento que anunciavam os sofrimentos do futuro Ungido de Deus. De entre todos eles, é particularmente comovedor aquele que habitualmente se designa como Canto quarto do Servo de Javé, contido no Livro de Isaías. O profeta, que justamente é chamado «o quinto evangelista », dá-nos neste Canto a imagem dos sofrimentos do Servo, com um realismo tão vivo como se o contemplasse com os próprios olhos: com os olhos do corpo e com os do espírito. A paixão de Cristo torna-se, à luz dos versículos de Isaías, quase mais expressiva e comovente do que nas descrições dos próprios evangelistas. Eis como se nos apresenta o verdadeiro Homem das dores:


« Não tem aparência bela nem decorosa
para atrair os nossos olhares...
Foi desprezado e evitado pelos homens,
homem das dores, familiarizado com o sofrimento;
como pessoa da qual se desvia o rosto,
desprezível e sem valor para nós.
No entanto, ele tomou sobre si as nossas enfermidades
carregou-se com as nossas dores,
e nós o julgávamos açoitado
e homem ferido por Deus e humilhado.
Mas foi transpassado por causa dos nossos delitos,
e espezinhado por causa das nossas culpas.
A punição salutar para nós foi-lhe infligida a ele,
e as suas chagas nos curaram.
Todos nós, como ovelhas, nos desgarrámos,
cada um seguia o seu caminho;
o Senhor fez cair sobre ele
as culpas de todos nós ». (Is. 53, 2-6)


O Canto do Servo sofredor contém uma descrição na qual se podem, de certo modo, identificar os momentos da paixão de Cristo com vários pormenores dos mesmos: a prisão, a humilhação, as bofetadas, os escarros, o rebaixamento da própria dignidade do prisioneiro, o juízo injusto; e, a seguir, a flagelação, a coroação de espinhos e o escárnio, a caminhada com a cruz, a crucifixão e a agonia.


Mais do que esta descrição da paixão, impressiona-nos ainda nas palavras do Profeta a profundidade do sacrifício de Cristo. Ele, embora inocente, carregou-se com os sofrimentos de todos os homens, porque assumiu sobre si os pecados de todos. « O Senhor fez cair sobre ele as culpas de todos nós »: todo o pecado do homem, na sua extensão e profundidade, se torna a verdadeira causa do sofrimento do Redentor. Se o sofrimento « se pode medir » pelo mal suportado, então as expressões do Profeta permitem-nos compreender a medida deste mal e deste sofrimento que Cristo carregou sobre si. Pode-se dizer que se trata de um sofrimento « substitutivo »; mas ele é, sobretudo, « redentor ». O Homem das dores da citada profecia é verdadeiramente aquele « cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo ». (Io. 1, 29) Com o seu sofrimento, os pecados são cancelados precisamente porque só ele, como Filho unigénito, podia tomá-los sobre si, assumi-los com aquele amor para com o Pai que supera o mal de todos os pecados; num certo sentido, ele aniquila este mal, no plano espiritual das relações entre Deus e a humanidade, e enche o espaço criado com o bem.


Deparamos aqui com a dualidade de natureza de um único sujeito pessoal do sofrimento redentor. Aquele que, com a sua paixão e morte na Cruz, opera a Redenção é o Filho unigénito que Deus nos « deu ». Ao mesmo tempo, este Filho da mesma natureza que o Pai sofre como homem. O seu sofrimento tem dimensões humanas; e tem igualmente — únicas na história da humanidade — uma profundidade e intensidade que, embora sendo humanas, podem ser também uma profundidade e intensidade de sofrimento incomparáveis, pelo facto de o Homem que sofre ser o próprio Filho unigénito em pessoa: « Deus de Deus ». Portanto, somente Ele — o Filho unigénito — é capaz de abarcar a extensão do mal contida no pecado do homem: em cada um dos pecados e no pecado « total », segundo as dimensões da existência histórica da humanidade na terra.


Pode-se dizer que as considerações anteriores nos levam agora diretamente ao Getsémani e ao Gólgota, onde se cumpriu o mesmo Canto do Servo sofredor, contido no Livro de Isaías. Antes de chegar aí, porém, leiamos os versículos sucessivos do Canto que constituem uma antecipação profética da paixão do Getsémani e do Gólgota. O Servo sofredor — e isso é por sua vez algo essencial para uma análise da paixão de Cristo — toma sobre si aqueles sofrimentos de que se falou, de um modo totalmente voluntário:


« Era maltratado e ele sofria,
não abria a boca;
era como cordeiro levado ao matadouro,
como ovelha muda nas mãos do tosquiador.
E não abriu a boca.
Com tirânica sentença foi suprimido;
e quem se preocupa pela sua sorte,
pelo modo como foi suprimido da terra dos vivos,
e foi ferido de morte por causa da iniquidade do seu povo?
Deram-lhe com os réus sepultura,
e uma tumba entre os malfeitores,
embora não tivesse cometido injustiça alguma,
nem se tenha achado engano algum na sua boca ». (Is. 53, 7-9)


Cristo sofre voluntariamente e sofre inocentemente. Ele acolhe, com o seu sofrimento, aquela interrogação — feita muitas vezes pelos homens — que foi expressa, num certo sentido, de uma maneira radical no Livro de Job. Cristo, porém, não só é portador em si da mesma interrogação (e isso de um modo ainda mais radical, uma vez que Ele não é somente homem como Job, mas é o Filho unigénito de Deus), como dá também a resposta mais completa que é possível a esta interrogação. A resposta emerge, pode-se dizer, da mesma matéria que constitui a pergunta. Cristo responde a esta pergunta, sobre o sofrimento, e sobre o sentido do sofrimento, não apenas com o seu ensino, isto é, com a Boa Nova, mas primeiro que tudo, com o próprio sofrimento, que está integrado, de um modo orgânico e indissolúvel, com os ensinamentos da Boa Nova. E esta é, por assim dizer, a última palavra, a síntese desse ensino: « a palavra da Cruz », como dirá um dia São Paulo. (Cfr. 1 Cor. 1, 18)


Esta « linguagem da Cruz » preenche a imagem da antiga profecia com uma realidade definitiva. Muitas passagens e discursos da pregação pública de Cristo atestam como Ele aceita desde o princípio este sofrimento, que é a vontade do Pai para a salvação do mundo. Neste ponto a oração no Getsémani reveste-se de uma importância decisiva. As palavras: « Meu Pai, se é possível passe de mim este cálice! Contudo, não se faça como eu quero, mas como tu queres! » (Matth. 26, 39) e as que vêm a seguir: « Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a tua vontade », (Ibid. 26, 42) encerram em si uma eloquência multiforme. Provam a verdade daquele amor que, com a sua obediência, o Filho unigénito demonstra para com o Pai. Atestam, ao mesmo tempo, a verdade do seu sofrimento. As palavras da oração de Cristo no Getsémani provam a verdade do amor mediante a verdade do sofrimento. As palavras de Cristo confirmam, com toda a simplicidade e cabalmente, esta verdade humana do sofrimento: o sofrimento consiste em suportar o mal, diante do qual o homem estremece; e precisamente como disse Cristo no Getsémani, também o homem diz: « passe de mim ».


As palavras de Cristo confirmam, ainda, esta única e incomparável profundidade e intensidade do sofrimento, que somente o Homem que é o Filho unigénito pôde experimentar; elas atestam aquela profundidade e intensidade que as palavras proféticas acima referidas nos ajudam, à sua maneira, a compreender. Não, por certo, completamente (para isso seria necessário penetrar o mistério divino-humano d'Aquele que dele era sujeito); elas ajudam-nos, no entanto, a compreender pelo menos a diferença (e, ao mesmo tempo, a semelhança) que se verifica entre todo o possível sofrimento do homem e o do Deus-Homem. O Getsémani é o lugar onde precisamente este sofrimento, com toda a verdade expressa pelo Profeta quanto ao mal que ele faz experimentar, se revelou quase definitivamente diante dos olhos da alma de Cristo.


Depois das palavras do Getsémani, vêm as palavras pronunciadas no Gólgota, que atestam esta profundidade — única na história do mundo — do mal do sofrimento que se experimenta. Quando Cristo diz: « Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes? », as suas palavras não são apenas expressão daquele abandono que, por diversas vezes, se encontra expresso no Antigo Testamento, especialmente nos Salmos; e, em particular, no Salmo 22 (Ps. 22 (21), 2), do qual provêm as palavras referidas. (Is. 53, 6) Pode-se dizer que estas palavras sobre o abandono nascem no plano da união inseparável do Filho com o Pai, e nascem porque o Pai « fez cair sobre ele as culpas de todos nós », (Is. 53, 6) na linha daquilo mesmo que mais tarde dirá São Paulo: « A ele, que não conhecera o pecado, Deus tratou-o, por nós, como pecado ». (2 Cor. 5, 21) Juntamente com este horrível peso, que dá bem a medida de « todo » o mal que está em voltar as costas a Deus, contido no pecado, Cristo, mediante a profundidade divina da união filial com o Pai, apercebe-se bem, de modo humanamente inexprimível, deste sofrimento que é a separação, a rejeição do Pai, a ruptura com Deus. Mas é exatamente mediante este sofrimento que ele realiza a Redenção e pode dizer ao expirar: « Tudo está consumado ». (Io. 19, 30)


Pode-se dizer também que se cumpriu a Escritura, que se realizaram definitivamente as palavras do Canto do Servo sofredor: « Aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento ». (Is. 53, 10) O Sofrimento humano atingiu o seu vértice na paixão de Cristo; e, ao mesmo tempo, revestiu-se de uma dimensão completamente nova e entrou numa ordem nova: ele foi associado ao amor, àquele amor de que Cristo falava a Nicodemos, àquele amor que cria o bem, tirando-o mesmo do mal, tirando-o por meio do sofrimento, tal como o bem supremo da Redenção do mundo foi tirado da Cruz de Cristo e nela encontra perenemente o seu princípio. A Cruz de Cristo tornou-se uma fonte da qual brotam rios de água viva. (Cfr. Io. 7, 37-38) Nela devemos também repropor-nos a pergunta sobre o sentido do sofrimento, e ler aí até ao fim a resposta a tal pergunta. 


São João Paulo II, Salvifici Doloris, 17-18.