Poesia: Escrava (Florbela Espanca)

 

Florbela Espanca, nome literário de Florbela da Alma da Conceição, nasceu em Vila Viçosa, no Alentejo, Portugal, no dia 8 de dezembro de 1894.

Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria do Carmo Toscano, que não podia ter filhos e autorizou o marido a se relacionar com a camponesa Antônia da Conceição Lobo. Com ela, João Maria teve dois filhos: Florbela e Apeles que foram levados para morar na casa do pai e foram registrados como filhos de Antônia e pai “incógnito”, que só a reconheceu como sua filha depois que ela morreu.

Em 1919, lançou o “Livro de Mágoas”. Parte de sua inspiração veio de sua vida tumultuada, inquieta e sofrida pelo relacionamento conflituoso com seu pai. 

Florbela Espanca morreu em Matosinhos, Portugal, no dia 8 de dezembro de 1930 e foi enterrada em Vila Viçosa, Portugal, cidade onde nasceu.

Mesmo não sendo uma pessoa "religiosa", ela nos presenteou o poema a seguir, onde se percebe o desejo da alma que se entrega como "escrava" do Senhor, e anseia por Ele, tal como a esposa pelo Esposo.


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Escrava

 
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu Senhor,
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gesto das minhas mãos tontas de amor!

 

 
Que te seja propício o astro e a flor,
Que a teus pés se incline a Terra e o Mar,
P’los séculos dos séculos sem par,
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu Senhor!

 

 
Eu, doce e humilde escrava, te saúdo,
E, de mãos postas, em sentida prece,
Canto teus olhos de oiro e de veludo.

 

 
Ah! esse verso imenso de ansiedade,
Esse verso de amor que te fizesse
Ser eterno por toda a Eternidade!...