Gomes Leal foi filho de um modesto funcionário da Alfândega, e começa por trabalhar como escrevente ao serviço de um notário lisboeta. Depois de uma vasta colaboração jornalística dispersa por periódicos diversos, publica o seu primeiro volume de poesias, Claridades do Sul. Em 1881, funda, mais uma vez ao lado de Magalhães Lima, o jornal O Século, onde assegura a rubrica "Carteira de Mefistófeles", que publicará importantes artigos de teorização sobre a poesia moderna. É também nesse ano que publica o panfleto A Traição, dirigido contra o rei D. Luís, onde apelida o rei de "salafrário", "assassino e ladrão", e é preso. Depois da morte da mãe, em 1910, converte-se ao catolicismo, mas cai na miséria, acabando a viver da caridade alheia e de uma pensão do Estado. Apesar de Gomes Leal ter sido reconhecido em vida essencialmente como poeta social e satírico, a sua "arte compósita", assim lhe chamou Vitorino Nemésio, assinala uma renovação na expressão poética portuguesa, abrindo caminho à poesia moderna.
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O Rouxinol do Calvário
Na noite que passou
o Cristo, no Calvário,
um rouxinol cantou
sobre a Cruz, solitário.
Os trigueiros soldados,
e os lírios de Salém,
perguntavam pasmados :
— Que voz canta tão bem ?
Como sentindo os males
das suas próprias penas,
vergavam-se nos cálix,
chorando, as açucenas.
Choravam os caminhos,
os dados, os cilícios,
a grinalda de espinhos,
e a esponja dos suplícios.
Choravam os sem luz,
e os rijos peitos bravos.
Começavam na cruz
a vacilar os cravos.
Pelo tranquilo espaço,
paravam as estrelas,
e o vagaroso passo
as mudas sentinelas.
Os peitos desumanos
ressentiam mudanças.
Deixavam os romanos
escorregar as lanças.
Assim cantou… cantou…
lembrando o Amor, o Céu.
Quando Jesus morreu,
do lenho, enfim, voou ! …
Trevas
Rasgou se o véu do Templo de alto a baixo,
Cortou o vento o ar como um açoite.
Rugiram os leões, e o eterno facho
do dia se eclipsou. — E fez-se a Noite.
Fenderam-se os rochedos, com ruídos.
Um singular terror gelou os ossos
dos legionários trágicos, vencidos
da confusão, do espanto, e dos destroços.
O morto surge e mais o seu sudário,
trazendo o assombro do final segredo.
O povo da Judeia do santuário
foi-se esconder na treva — e teve medo.
As violetas murcharam sobre a haste.
E uma voz singular, lúgubre, estranha,
soluçou pela trágica montanha :
— «Meu Pai! Meu Pai ! porque me abandonaste?»
O Último Golpe de Lança
Quando ele enfim morrendo, ele, o cordeiro,
rola mansa no ar calado e imundo,
pendeu, bem como um lírio moribundo,
sobre a haste do trágico madeiro…
quando, lançando o espírito profundo,
ao reino belo, grande, verdadeiro.
caiu enfim chagado, justiceiro,
ainda, ainda perdoando ao mundo …
um soldado romano vendo-o exposto,
e já morto na Cruz, lívido o rosto,
com um golpe de lança o trespassou.
Saiu daquela chaga sangue e água:
— Sangue que inda quis dar a tanta mágoa.
— Água de pranto ainda que chorou.
