Gregório de Matos Guerra, poeta baiano do século XIX, é considerado o primeiro poeta genuinamente brasileiro de nossa literatura. Famoso por seu tom ácido, despertou a ira dos que eram criticados em seus poemas. Muito dinâmico, o poeta não compôs só os poemas satíricos que lhe deram a fama de Boca do Inferno, mas também produziu obras religiosas e líricas.
O poeta Gregório de Matos nasceu na Bahia, provavelmente em 20 de dezembro de 1633, e teria falecido em janeiro de 1696, em Recife. Após ter cursado os primeiros estudos no Colégio dos Jesuítas, em Salvador, mudou-se para Coimbra, em Portugal, onde cursou Direito. Após formar-se, exerceu a advogacia em Lisboa por um tempo, até que retornou à Bahia em razão do incômodo gerado por suas sátiras na sociedade portuguesa.
***
Sonetos
A Jesus Cristo Nosso Senhor
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que voa há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
Soneto religioso
Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme e inteiro.
Neste lance, por ser o derradeiro
pois vejo a minha vida anoitecer,
é, meu Jesus, a hora de se ver
a brandura de um Pai, manso Cordeiro
Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.
Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.
BUSCANDO A CRISTO
A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.
A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lagrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados,
A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me.
A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.
