Poesias: Setenário das Dores de Nossa Senhora, V Dor (Alphonsus de Guimaraens)

 

Alphonsus de Guimaraens (ou Afonso Henriques da Costa Guimarães) nasceu em 24 de julho de 1870, em Ouro Preto, Minas Gerais. Além de poeta, foi promotor, juiz e jornalista. A morte de sua primeira noiva — a prima Constança — fez com que o escritor passasse a ver a realidade com os olhos da tristeza.

Assim, o autor, que faleceu em 15 de julho de 1921, fez parte do simbolismo brasileiro e produziu melancólicas poesias, caracterizadas por uma linguagem simples, além do uso de aliterações e sinestesias. 

Ainda assim, casou-se com Zenaide de Oliveira, com quem teve 14 filhos. Dividiu seu tempo entre as atividades de juiz e a produção de sua obra poética.

Além do lirismo, os versos de Alphonsus Guimaraens refletem a preocupação pelo sentimento religioso e pela meditação cristã. De família católica, o poeta tornou-se o maior cantor da Virgem, dedicando a Nossa Senhora um conjunto de 49 sonetos, reunidos sob o título de Setenário das Dores de Nossa Senhora.

Para melhor meditarmos nesse Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, trazemos o canto da quinta de dor de Maria Santíssima (a morte de Cristo na Cruz).

***

QUINTA DOR

Ubi crucifixerunt eum, et cum eo alios duos
inc et hinc, medium autem Iesum.
S. IOAN. XIX, 18.

- I -

Senhor Jesus, que sois toda a bondade,
Muitas vezes faz frio e a mágoa é intensa
Na minha Alma, e esta angústia que me invade
Clama só pela vossa real Presença...

 

Amparai-me com a vossa caridade:
Vindo, como virá, da luz imensa
Da vossa Mão (de toda a eternidade),
Há de ser grande sempre a recompensa.

 

Seja um sinal apenas de conforto,
Um gesto simples que, tombando do Alto,
Possa animar-me o coração já morto.

 

Fujam de mim as tentações do Inferno:
Que é o momento de contemplar o assalto
Contra a glória do vosso Corpo eterno.


    

- ÏI -

E tu, Senhora, cujo olhar tranqüilo
De nuvens brancas a minha Alma veste,
Olhar sublime que foi tudo aquilo
Que no Céu encontrei de mais celeste:

 

Tu, ermida sagrada onde me exilo,
Longe da fome, e sede, e guerra, e peste,
A mostrar-me no Céu, para segui-lo,
Todo o luar da esperança que me deste:

 

Mãe dolorosa! num momento incerto
Virás abrir-me os rútilos sacrários
De tua Alma que está de Deus tão perto...

 

Virás, talvez, e então, por certo, as minhas
Mãos de sombra debulharão rosários
Para a maior de todas as Rainhas...

 

    - III -

De mim piedade vós tereis. Bem ledes
Que espero o que jamais me será dado...
Mas a minha Alma é um templo sem paredes
Em que penetra o sol de cada lado.

 

Com os vossos olhos sinto que vós vedes
A desgraça em que vivo encastelado...
Oh as sedes siderais! Eternas sedes
Suavizadas no mundo constelado.

 

Mas com que amor cheio de unção e glória
Convosco chorarei as vossas Dores
Na outra vida e na vida transitória...

 

E possa eu ver-vos, na hora das Trindades,
Tendo aos pés, em etéreos resplendores,
Tronos, Dominações e Potestades...

 

        - IV -

Pois sede teve o vosso FIlho na hora
Em que Vós, e Elas, a seus Pés vos vistes,
Certo coroadas por suprema aurora,
Mas todas três tão pálidas, tão tristes...

 

O seu Olhar, cheio de dor, não chora,
Resignado ante as Dores que sentistes,
Vós, torre de marfim, santa Senhora,
Alma que em pranto astral vos diluístes!

 

E então secos os Lábios, a Garganta
Em fogo, é o instante do cruel martírio:
"Sede"! geme-lhe a Voz que se quebranta.

 

Na ponta de uma lança ergue-se a Esponja:
Mais se enlanguesce a vossa cor de lírio,
E esse perfil que predizia a monja... 

 

      - V -

Iam Maria mais José e o Infante
Louro na fuga para o Egito. Ruídos
Soam: a tarde vai caindo, e diante
Deles surgem, velozes, dois bandidos.

 

— "Somos pobres!" e a voz é um sonho errante.
Gestas assalta os Pais entristecidos;
Dimas a Criança toma, e o seu semblante
É outro; sente harpas de Anjos nos ouvidos...

 

E faz Gestas abandoná-los. Ora,
Esses ladrões, os Dois, crucificados
Com aquele mesmo Infante estão agora.

 

DEle se lembra Dimas, indeciso:
— "Vós, Senhor!" e Jesus (... Lábios sagrados!)
— "Serás hoje comigo em Paraíso." 

 

      - VI -

Junto da Cruz, em pé, Maria estava,
E perto dela, João. Jesus, que os via,
Para os dois entes celestiais olhava,
Olhos saudosos de melancolia.

 

— "Eis teu filho, Mulher." E João chorava.
E a mesma Voz dulcíssima dizia
Ao discípulo que Jesus amava:
— "Eis tua mãe." Pouco depois, morria.

 

Sobre-humanas delícias nunca vistas
Vieram, brancas, beijar a Alma tão pura
Do mais suave dos Quatro Evangelistas.

 

Meio S. João! fado de glórias pôs-te
A mão de Deus: que é a maior ventura
Ser amado de Cristo como foste. 

 

        - VII -

Vê-Lo não vos bastava, doce Dama,
Longe dos vossos maternais carinhos;
Sentir que a plebe vil, que ruge e clama,
Viesse em fúria assaltá-Lo nos caminhos:

 

Escarros que tombavam como lama
Sobre Quem é mais alvo que os arminhos:
E a Fronte real, em radiações de flama,
Cingida pelas pontas dos Espinhos:

 

Açoites, bofetadas, Cravos, Chagas,
E a Esponja, e a Lança, e o Fel, e a Sede estranha,
E o Sangue santo que corria em bagas:

 

Tudo era pouco para as vossas Dores...
Que ainda havíeis de vê-Lo na Montanha,
Expirando entre dois salteadores!

 

Abril de 1898