Guia para a leitura das “Confissões” de santo Agostinho de Hipona: O problema do mal


 

LIVRO 7:
EM BUSCA DA VERDADE (Segunda parte)

Segue um texto para auxiliar a compreensão desse capítulo.

 

O problema do mal em santo Agostinho

Umas das grandes dúvidas que Agostinho enfrenta em seu processo de conversão é sobre o mal. Enquanto maniqueísta, acreditava em duas divindades, uma boa (Deus), criadora do espírito, e outra má, algumas vezes chamada de Satanás, que criou a matéria. A matéria seria má, enquanto o espírito, bom. Mas a primeira dificuldade de compreensão que ele enfrentava era sobre a realidade espiritual, cuja existência ele não conseguia conceber. 


A matéria, então, seria algo “cósmico”, não criada por Deus, e essencialmente má. Ela se contrapunha continuamente ao espírito, e essa luta contínua era a luta entre o bem e o mal, entre deus e Satanás. Dessa forma, o ser humano está totalmente isento de responsabilidade sobre o mal, e o próprio pecado não existe.

Para os maniqueus, a alma é boa, mas está “presa” no corpo humano e submetida a suas concupiscências, e são duas substâncias que não se homogeneízam, fazendo com que acabem por gerar uma disputa entre si.

Ao iniciar o seu caminho como catecúmeno, essas dúvidas o assolam, e Agostinho tenta encontrar uma solução para esse problema: se Deus é o criador de todas as coisas e é o Sumo Bem, como pode o mundo estar repleto do mal? Se o mal existe, foi Deus quem o criou? Qual a natureza do mal, de onde ele surge, e como Deus pode coexistir com o mal no mundo?

Deus é o sumo bem, e não há nenhum bem supremo a não ser Deus: Ele não pode mudar, pois não há nada que possa adquirir para “aperfeiçoar sua perfeição”. Se Deus é sumamente bom e criou todas as coisas, o mal não pode ser parte da criação divina. De onde ele vem então?

Agostinho encontra a resposta a partir do contato com a filosofia platônica: o mal não é um ser, mas uma privação de ser, uma deficiência. O mal não é uma substância, porque se assim fosse, ele seria um bem. Além disso, as substâncias são incorruptíveis, e isso revela que Deus fez todas as coisas boas.

O mal não existe como substância, ao contrário do que afirmavam dos maniqueus, pois admitir isso é afirmar que o mal é uma criação de Deus. Ele conferiu às suas criaturas a participação em seu ser, e assim, o mal “ontológico” não existe.

Outro tipo de mal é o moral, que é o pecado. Ele depende da vontade do ser humano. O ser humano é livre, e por isso ele tem a capacidade de cometer pecado, mas o pecado não faz parte da essência do livre-arbítrio. Deus não é o autor do mal, mas é o homem, que por livre vontade corrompe a si mesmo e peca, agindo como autor do mal.

A vontade humana não é má em sua essência, nem os objetos de seu desejo. O mal não é uma inclinação a algo mau, mas uma inversão na hierarquia de valores, quando o homem troca um bem superior por um inferior. Assim sendo, o pecado é o afastamento de Deus, quando o homem rejeita o Sumo Bem por uma paixão carnal, algo que é inferiormente bom em relação ao Bem rejeitado.

A vontade humana deveria tender para o bem supremo, mas como existem muitos bens criados e finitos, a vontade pode se voltar para eles, preferindo a criatura ao Criador, os bens inferiores aos superiores. O mal moral é uma “aversão a Deus” e uma “conversão à criatura”.

Por fim, há o mal físico. São as dores, sofrimentos, doenças, guerra, a morte. Esses males são consequência do mal moral, ou seja, do pecado.

Resumindo: a origem de todo mal não é a criação, mas a vontade desregrada do homem, na inversão da hierarquia dos bens e no mau uso do livre-arbítrio.

 

Algumas pistas para a reflexão...

+ Qual foi o grande erro dos maniqueus?

+ O que é o mal?

+ De que forma nosso pecado afeta nossa percepção do bem e nossa natureza humana?

+ Como o nosso pecado afeta toda a criação?

+ Qual é a origem de todo mal?