"Não se pode separar a Cruz do trabalho humano"




A cruz não se pode separar do trabalho humano. Não se pode separar Cristo do trabalho humano. E isto foi confirmado aqui em Nowa Huta. E este foi o princípio da nova evangelização, nos alvores do milênio do cristianismo na Polónia. Este novo início vivemo-lo juntos e levei-o comigo, de Cracóvia para Roma, como uma relíquia.


O cristianismo e a Igreja não têm medo do mundo do trabalho. Não têm medo do sistema baseado sobre o trabalho. O Papa não tem medo dos homens do trabalho. Eles sempre lhe estiveram particularmente próximos. Saiu do meio deles. Saiu das pedreiras de Zakrowek, das caldeiras de Solvay em Boreki, depois de Nowa Huta. Através de todos estes ambientes, através das suas próprias experiências de trabalho – ouso dizer — o Papa aprendeu novamente o Evangelho. Deu-se conta e está convencido de quão profundamente está gravado no Evangelho a problemática contemporânea do trabalho humano. Como é impossível resolvê-la até ao fim sem o Evangelho.


De fato, a problemática contemporânea do trabalho humano (só contemporânea, afinal?), em última análise, não se reduz — perdoem-me todos os especialistas — nem à técnica nem à economia, mas a uma categoria fundamental: isto é, à categoria da dignidade do trabalho, ou seja da dignidade do homem. A economia, a técnica e muitas outras especializações e matérias adquirem a sua razão de ser daquela única categoria essencial. Se não se referem a ela e se se formam fora da dignidade do trabalho humano, estão em erro, são nocivas e são contra o homem.


Esta categoria fundamental é humanística. Permito-me dizer que esta categoria fundamental, categoria do trabalho como medida da dignidade do homem, é cristã. Encontramo-la no seu mais elevado grau de intensidade, em Cristo.


Baste isto, caríssimos Irmãos. Não foi só uma vez que, como vosso Bispo, me encontrei aqui convosco, e tratei mais amplamente todos estes temas. Hoje, como vosso hóspede, devo tratá-los de modo mais conciso. Mas recordai esta antiga máxima: Cristo não aprovará nunca que o homem seja considerado — ou se considere a si próprio — apenas como instrumento de produção, que seja apreciado, estimado e avaliado segundo tal princípio. Cristo não o aprovará nunca! Por isso se fez crucificar, como se fosse a grande soleira da história espiritual do homem, para opor-se a qualquer degradação do homem, mesmo à degradação mediante o trabalho. Cristo permanece diante dos nossos olhos sobre a cruz, para que cada homem seja consciente daquela força que Ele lhe deu: Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo. 1, 12).


E disto devem recordar-se tanto os trabalhadores como os dadores de trabalho, tanto o sistema de trabalho como o da retribuição devem recordá-lo o Estado, a nação e a Igreja.


Quando estava entre vós, procurava dar testemunho disto. Rezai para que eu continue a prestar tal testemunho também no futuro, tanto mais que agora estou em Roma; para que continue a prestá-lo perante toda a Igreja e perante o mundo contemporâneo.



São João Paulo II: Homilia no Santuário da Santa Cruz, Mogila, 9 de junho de 1979