A ideia de um anjo protetor das nações
O fundamento teológico da devoção está na tradição cristã sobre o ministério dos anjos. São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, afirma que a Providência divina pode confiar aos anjos não apenas a proteção de indivíduos, mas também a de comunidades e povos.
Essa concepção foi particularmente forte na tradição católica portuguesa. Portugal possuía uma antiga devoção ao Anjo Custódio de Portugal, com culto litúrgico próprio.
Quando essa mentalidade religiosa se desenvolveu no Brasil, também surgiu a ideia de que a nação brasileira possuía seu Santo Anjo da Guarda ou Anjo Custódio, principalmente depois da Proclamação da Independência em 1822.
Inicialmente, a devoção ao Anjo da Guarda do Brasil não o identificava com São Rafael. A documentação e a tradição preservada apontam para uma devoção própria ao Anjo Custódio da nação.
Em um periódico brasileiro de 1865 (Correio Mercantil, 16 de junho de 1865), durante o Império, encontramos a expressão “o anjo da guarda do império”. O texto fala do chamado “gênio do Brasil” e identifica sua representação com a figura de um anjo protetor. Isso é importante porque demonstra que a linguagem do anjo tutelar da nação brasileira não é uma invenção recente da internet ou uma devoção criada no século XX. Naquele contexto, o anjo aparece associado à proteção da pátria e à identidade do Império.
Além disso, o Santo Anjo da Guarda do Brasil era celebrado em 7 de setembro, justamente o dia da nossa Independência. Assim, a celebração religiosa e a comemoração nacional ficavam unidas: enquanto o país recordava sua independência, os católicos eram convidados a rezar pela proteção espiritual da pátria. Fontes que preservam essa tradição afirmam que ela foi particularmente honrada durante o período imperial.
Não se tratava de considerar a nação uma realidade religiosa no lugar da Igreja, mas de aplicar à comunidade nacional a ideia de que Deus também governa os povos por sua Providência. A oração tradicional expressava isso muito bem: “ Deus Eterno e Onipotente, que destinastes a cada nação o seu Anjo da Guarda, concedei que, pela intercessão e patrocínio do Anjo do Brasil, sejamos livres de todas as adversidades. Por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.” (Oração Coleta da Missa ao Santo Anjo da Guarda do Brasil). E pedia que, pela intercessão do Anjo do Brasil, o país fosse preservado das adversidades.
E onde entra São Rafael?
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| Dom Manoel Nunes Coelho |
No início do século XX, alguns membros do episcopado brasileiro começaram a invocar São Rafael Arcanjo como protetor do Brasil. A figura decisiva nesse processo foi Dom Manoel Nunes Coelho, primeiro bispo da Diocese de Luz, em Minas Gerais.
Dom Manoel era particularmente devoto de São Rafael. A própria Diocese de Luz registra que ele dedicou ao Arcanjo um hospital, um colégio e, posteriormente, a própria diocese. Mas Dom Manoel foi além. Ele passou a defender a ideia de que São Rafael seria o Anjo Custódio do Brasil.


